Carlos Ferreira – O homem da bandeja

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Tem 56 anos e é uma figura típica das corridas. Iniciado, destacou-se no Benfica de Luanda. Ainda foi 7º classificado na S. Silvestre da Amadora e depois estreou-se lá… com bandeja!

Carlos Ferreira é um dos corredores mais conhecidos das provas populares. Quem não conhece o “homem da bandeja”? Até o ex-presidente da República, Jorge Sampaio, o mencionou como uma das figuras da prova, num livro dedicado à Meia Maratona da Ponte 25 de Abril.

Natural de Oliveira de Frades, tem 56 anos e é empregado no ramo da restauração. As corridas apareceram aos 12 anos em Luanda. “Comecei a ir aos treinos, o treinador era o Matos Fernandes. Estreei-me num corta-mato e ganhei. O Benfica de Luanda começou a interessar-se por mim e comecei a beneficiar de algumas regalias, já tinha um melhor equipamento e iam-me buscar a casa”. Venci a segunda prova em que participei e sagrei-me campeão de corta-mato em Angola como iniciado”.

Carlos continuou a destacar-se em Angola, de tal modo que estava selecionado para representar a colónia portuguesa nos Campeonatos Nacionais em Portugal. Acabou por não vir dada a confusão lá instalada após o 25 de Abril.

De Luanda à Amadora

O nosso entrevistado acabou por regressar a Portugal, instalando-se na região de Viseu. Fundou a Associação Cultural e Recreativa de Cambra e participou em provas no distrito, sendo o responsável pelo lançamento do atleta José Lopes. A sua primeira corrida oficial foi os 8 km dos Ribeirinhos em Viseu. “Foi uma alegria!”.

Veio mais tarde aos 17 anos para Lisboa com a ideia de representar o Belenenses. Chegou a treinar lá mas o seu irmão que era empresário na área da restauração na Amadora, precisou de um empregado e lá foi ele. Como não era possível conciliar a sua nova profissão com o atletismo, teve de deixar este para trás.

A estreia de bandeja

Mas o bichinho da corrida nunca o abandonou e deu-se o regresso. Chegou a fazer 1h10m à meia maratona e obteve um brilhante 7º lugar na S. Silvestre da Amadora em 1978, prova vencida por Carlos Lopes.

Nesses anos, havia um corredor que costumava correr com uma bandeja e que não pôde ir à S. Silvestre da Amadora. Curiosamente, tinha o mesmo nome do nosso entrevistado, Carlos Ferreira. Aqueles que correm há mais de 20 anos, lembram-se certamente dele.

Os espetadores apreciavam o Carlos Ferreira com a bandeja. A ausência desta figura típica na Amadora levou o nosso entrevistado a pedir à Organização da prova um dorsal para correr com a bandeja, substituindo o seu homónimo. E foi assim que se estreou a correr devidamente fardado com a bandeja o copo e a garrafa de água.

Mais tarde, os dois Carlos Ferreiras correram juntos, devidamente fardados e com a bandeja até ao ano de 2000, quando o mais velho se retirou devido a problemas de saúde.

Nada colado à bandeja

Atualmente, Carlos Ferreira participa em mais de 30 corridas por ano e corre pela equipa do Vila Fria patrocinada pelo JG Seguros.

A sua distância preferida vai para os 10 km e treina em média três vezes por semana mas sem a bandeja. Não tem treinador nem plano de treinos mas diz-nos inspirar-se nos ensinamentos de Matos Fernandes.

Não lhe é difícil correr devidamente fardado com a bandeja mais o copo e a garrafa de água e que não estão presos. “Eu trabalho no ramo, estou habituado. Quando está vento é que é mais complicado, principalmente nos cruzamentos. Aí, há que segurar bem a bandeja”.

Atrás para evitar confusões

Os sapatos com que corre, nem são sapatos de corrida nem sapatos do dia a dia. “São uns sapatos diferentes, estão a meio caminho dos dois mas reconheço que não são os ideais para correr”.

Para evitar as confusões das partidas, Carlos Ferreira começa de trás para a frente. E costuma chegar a meio da classificação. É incansável nos incentivos a quem corre me nos que ele. “Ajudo quem não está bem, não os deixo desistir. “Os miúdos olham admirados para mim, há que saber brincar durante a corrida”. Até agora, teve apenas um percalço quando duas raparigas na Meia Maratona da Ponte 25 Abril lhe derrubaram a bandeja quase a chegar à meta.

Especial na Amadora

Não hesita quando lhe perguntámos qual a sua prova preferida. A S. Silvestre da Amadora onde só faltou três vezes. Nesta prova, tem um tratamento especial pois parte a seguir ao escalão feminino, com dez minutos de avanço do masculino.

Já participou em 23 edições na Ponte 25 de Abril e é totalista na Ponte Vasco da Gama e nas Corridas do Sporting e do Benfica, e a Meia Maratona dos Palácios é a que lhe deixou menos saudades, devido ao grau de dificuldade.

Participou apenas numa maratona, a de Lisboa que teve menos um quilómetro, em 1984. Desistiu aos 35 km e não voltou a tentar a distância. 

Falagueira e Oliveira de Frades

Carlos Ferreira já morou na Falagueira, Amadora. “Quando corro a S. Silvestre e passo por lá, comove-me a reação dos seus moradores”. Outro momento marcante passou-se em Oliveira de Frades, sua terra natal. “Foi no Grande Prémio, treinei muito e consegui ganhar a prova”.

Quanto a sugestões para uma melhor organização das provas, pensa que se podem melhorar as partidas, separando a elite dos populares.

Vê o futuro da modalidade com otimismo. “Temos matéria-prima. Se houver métodos de treino adequados, podemos voltar a ter bons fundistas na estrada e na pista. E cada vez, há mais jovens e mulheres a correr”.

É benfiquista ferrenho e num dos campeonatos conquistados pelo Benfica, desafiaram-no para vir de Fátima ao Estádio da Luz com a bandeja na mão. Já tinha apoios da segurança e da Cruz Vermelha mas a Direção do clube não o deixou entrar sozinho no estádio. 

Porto e Paris

Pensa correr enquanto puder. “Desistir, nunca!”. Apesar dos sapatos com que corre não serem os ideais, as lesões não o visitam e se não estivesse no atletismo, teria escolhido o andebol.

Costuma fazer exames médicos de rotina. Tem o devido cuidado com a alimentação, dando preferência aos grelhados.

Já quanto a projetos futuros na modalidade, não é exigente: “Gostava de correr no Porto e devo ir em Março próximo à Meia Maratona de Paris. Tenho lá um sobrinho a trabalhar e já me convidou para ir à prova”.

Comentários

Sendo uma figura popular no pelotão, já ouviu inúmeros comentários, de outros atletas e dos espetadores. Aqui vão alguns: “Olha o bandeijas!”; “Vai uma imperial”; “Vai um café”. Quando lhe pedem a imperial, responde “Não pode ser, acabou-se o gás!”. E quando passa por outros companheiros de corrida, já lhes tem dito: “Deixem passar quem trabalha!”.

Namorada

Este passou-se numa das provas onde estava acompanhado por algumas jovens atletas. Os espetadores perguntaram-lhe “Oh bandejas, outra vez aqui?” De pronto, veio a resposta: “Sim, procuro namorada!”. As raparigas também brincaram com a situação e começaram a gritar: “Eu, eu!”. Elas deixaram-no um bocado atrapalhado mas lá continuaram a correr!

Autógrafo

Esta passou-se na última S. Silvestre de Lisboa. “Fui para a prova de comboio, já fardado e com a bandeja. Foi então que uma criança com uns dez anos me veio pedir um autógrafo. Como fiquei admirado, o pai da criança explicou-me que eu o tinha ajudado na Corrida do Oriente e que ele nunca mais se tinha esquecido de mim”.

Corridas com bandejas na Europa

Encontram-se numerosos registros de corridas com bandejas em Paris, Londres ou Berlim no início do século XX. E estas corridas terão tido a sua origem em França, designadas como “courses des garçons de café”.

Tradicionalmente, estas corridas foram organizadas para melhorar o reconhecimento da profissão dos empregados de mesa em Paris. Esta é a razão porque ainda hoje, estas corridas têm um lugar na cultura francesa e são disputadas habitualmente no 14 de Julho, dia da Bastilha e feriado nacional.

Na sua origem, o regulamento destas provas proibia os participantes de correr, eles apenas podiam marchar rápido sem jamais correr.

Os regulamentos alteraram-se e estas corridas atravessaram os continentes. Hoje, encontram-se corridas de empregados de mesa em mais de 53 países, de Hong Kong a Washington, Bruxelas, Buenos Aires ou Japão. Há no mundo, mais de 724 corridas com bandeja, de acordo com os registros num site internacional das corridas de empregados de mesa.

Para quando uma corrida destas em Portugal?

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