Florinda Fernandes tem 56 anos e é Técnica Superior na área da Educação. Começou a correr há dez anos e representa o Centro de Atletismo de Mazarefes, clube do seu concelho. É dona de um rico curriculum, com vários títulos nacionais no seu escalão na estrada, na pista e no trail. Já recentemente e no Campeonato Europeu Master disputado na Madeira, obteve a medalha de prata nos 2.000 m obstáculos.

Florinda Fernandes tem 56 anos e é natural de Deão, aldeia situada no concelho de Viana do Castelo. É Técnica Superior na área da Educação e começou a correr há dez anos. A “culpa” foi do seu filho mais novo. “Aumentei de peso e não me sentia muito confortável comigo mesma. Comecei por fazer caminhadas, mas aos poucos fui alternando com corrida e quando dei por mim, já corria regularmente”.
Florinda é atleta do Centro de Atletismo de Mazarefes, clube do seu concelho. Treina em média, 5 a 6 vezes por semana, habitualmente só e normalmente ao fim do dia. Ao fim de semana, quando possível, gosta de treinar na companhia de alguns companheiros da equipa.
Tem o seu treinador, Manuel Gomes, seguindo o seu plano de treinos. “É importante ter alguém que acompanhe a evolução, ajuste as cargas e ajude a equilibrar os treinos com a vida profissional e familiar” .
“É a corrida que me ensina a ser mais organizada, disciplinada e resiliente”
Exercício de equilíbrio, a conciliação da vida profissional com a família e as corridas

Para Florinda, não tem sido fácil conseguir conciliar o trabalho com a família e os treinos, é um verdadeiro exercício de equilíbrio. “Requer disciplina, organização e, acima de tudo, muita vontade. Trabalho durante o dia e costumo treinar ao fim da tarde, muitas vezes enquanto o meu filho, que também é atleta, está nos seus treinos. Assim, conseguimos partilhar o tempo e rentabilizar o dia”.
Mas não é fácil. Saem de casa pelas 7h30 e só regressam perto das 21h00. “Há cansaço, há dias em que não apetece treinar, momentos em que surge a vontade de parar. Mas é precisamente nesses dias que a corrida me devolve o ânimo, me faz reencontrar comigo mesma e me lembra que sou mais forte do que a desmotivação. No fundo, é a corrida que me ensina a ser mais organizada, disciplinada e resiliente”.
E acrescenta: “Ser mãe, mulher, profissional e atleta não é simples, exige fazer escolhas e, muitas vezes, abrir mão de algumas coisas. Mas é possível. Quando se faz com paixão, tudo encontra o seu lugar. É nesse equilíbrio – nem sempre perfeito – que descubro o verdadeiro sentido de força e realização”.
Estreia na S. Silvestre de Viana do Castelo

Florinda estreou-se no mundo das corridas na S. Silvestre de Viana do Castelo. Recorda então a estreia: “Foi uma experiência que ficou gravada na memória. Na altura, ainda era tudo muito novo para mim, o ambiente das corridas, o nervosismo da partida, a multidão de atletas. Lembro-me que estava um bocado engripada e até pensei em desistir antes de começar, mas a vontade de cumprir aquele objetivo falou mais alto. Quando cruzei a meta, percebi que tinha conquistado muito mais do que um tempo ou um lugar: tinha provado a mim mesma que era capaz. Foi um momento de pura superação e emoção. Terminei com um grande sorriso, o coração cheio e a certeza de que aquele seria apenas o início de uma nova paixão”.
“O trail é onde me sinto mais em harmonia comigo mesma e onde aprendi a acreditar mais nas minhas capacidades”
Da pista ao trail
Atualmente, corre em média entre 15 a 20 provas por ano. Não elege uma prova especial em que goste mais de participar. “Gosto de todas as corridas, independentemente do tipo – estrada, corta-mato, pista ou trail. Acredito que cada tipo de corrida tem algo de especial. A estrada dá-me aquela sensação de ritmo e superação pessoal; o corta-mato traz a força e a resistência mental; a pista exige concentração, técnica e velocidade; e o trail oferece o contacto direto com a natureza e uma liberdade única.
Se tivesse de escolher, talvez o trail tivesse um lugar especial no meu coração. É onde me sinto mais em harmonia comigo mesma e onde aprendi a acreditar mais nas minhas capacidades. Também tenho um título nacional de trail master. Mas, no fundo, gosto de correr em todo o lado. O importante é sentir o prazer da corrida, independentemente do terreno”.

Se Florinda não tem uma prova que mereça a sua preferência, também não tem provas de que não goste. E justifica: “Mesmo aquelas que correm menos bem, em que o percurso é duro, o calor aperta ou o corpo não responde, acabam sempre por ensinar alguma coisa. Cada prova tem o seu valor e a sua história – às vezes não são as mais fáceis, mas são as que mais nos fazem crescer como atletas e como pessoas”.
“O trail tem algo de mágico. É desafiante, imprevisível e profundamente libertador… é uma forma de me reencontrar comigo mesma”
Distância preferida passa pelos dez quilómetros
A distância preferida de Florinda passa pelos dez quilómetros mas aprecia todas as distâncias. “Cada uma tem o seu desafio e a sua forma de nos testar. As mais curtas exigem velocidade e concentração, enquanto as mais longas pedem resistência e controlo mental”.
Nos dez quilómetros, ela encontra o equilíbrio perfeito entre intensidade e prazer. “É uma distância que me permite dar o máximo, mas ainda desfrutar de cada quilómetro. Também tenho títulos nacionais na distância de 10.000 m”.
Experiência inesquecível na primeira maratona

Florinda já correu várias maratonas mas a primeira no Porto é aquela que tem um significado muito especial para si. “A primeira foi uma experiência inesquecível. Lembro-me da emoção de estar ali, no meio de tantos atletas, a viver algo que sempre me pareceu distante. Fui sozinha, sem acompanhamento e sem qualquer plano de treino estruturado – na altura, nem sabia o que isso era! Fui apenas com vontade e coração.
Corri ao meu ritmo, desfrutei do ambiente e, para minha surpresa, terminei à frente de amigos que se tinham preparado especificamente para a prova.
A sensação de cruzar aquela meta foi indescritível, acho que até chorei de emoção”.
Mais tarde, na época 2024/2025, a Maratona do Porto voltou a deixar-lhe gratas recordações quando conseguiu concretizar um sonho: ser campeã nacional no seu escalão. “É uma prova que representa superação, força e, acima de tudo, amor pela corrida”.
“Correr não é apenas um desporto para mim, é parte da minha vida, uma forma de me sentir viva, de superar desafios e de aprender sobre mim mesma todos os dias… e de me acalmar!”

Rico curriculum desportivo
Florinda é dona de um rico curriculum desportivo. Na época 2024/2025, alcançou alguns resultados que a deixaram muito orgulhosa.
Foi campeã nacional da maratona no seu escalão, bem como campeã nacional dos 5.000 m em estrada e dos 800 m em pista curta.
Sagrou-se ainda vice-campeã nacional nos 1.500 e 3.000 m em pista curta, e nos 2.000 m obstáculos na pista ao ar livre.
A nível internacional, esteve recentemente no Campeonato Europeu Master, na Madeira, onde subiu ao pódio como vice-campeã nos 2.000 m obstáculos, “um resultado que nunca imaginei alcançar quando comecei a correr”. Para além dos 2.000 m obstáculos, também participou no cross, nos 10 km estrada e na meia maratona, mostrando-se satisfeita com o seu desempenho.
Além destes títulos, continua a marcar presença em várias provas locais e regionais, nacionais e internacionais, tanto em estrada como em trail, onde tem somado vários pódios.
“Mais do que os resultados, o que me deixa mais feliz é sentir que o esforço diário, a dedicação e o amor pela corrida, estão a dar frutos e a inspirar outros a acreditarem em si”.

Fã do trail
Florinda é também fã do trail, considerando que foi uma das melhores descobertas da sua vida desportiva. “O trail tem algo de mágico. É desafiante, imprevisível e profundamente libertador. Correr em trilhos, sentir o contacto com a natureza, o som dos passos na terra e o ar puro das montanhas, dá-me uma energia diferente”.
Foi também no trail que ela começou a acreditar mais em si, a perceber que era capaz de ir mais longe do que imaginava.
“Cada prova é uma aventura, com momentos de superação, esforço e alegria. Sem dúvida, é para continuar porque o trail, mais do que um tipo de corrida, é uma forma de me reencontrar comigo mesma”.
“Acredito que ouvir o corpo é tão importante quanto treinar; saber parar, recuperar e cuidar de nós mesmos, faz toda a diferença para uma carreira duradoura no atletismo”
Primeiro título nacional em 2020, momento mais marcante da sua carreira desportiva
Florinda elege o seu primeiro título nacional nos 3000 m em pista curta, em 2020, como o momento mais marcante da sua carreira desportiva. “Lembro-me de entrar naquela pista sem grandes expectativas, até porque era a primeira vez que competia num ambiente assim. Nem sequer sabia bem o que era uma pista coberta! Mas à medida que a prova foi avançando, percebi que estava a fazer algo especial.
Quando cruzei a meta e percebi que era campeã nacional, a emoção foi enorme. Foi ali que senti, pela primeira vez, que todo o esforço, a dedicação e as horas de treino valiam a pena. Mais do que um título, foi um momento de confirmação pessoal, a prova de que acreditar em nós próprios, pode realmente transformar tudo”.
“Gosto de desportos de resistência, que exigem persistência e força mental, mas que também permitem sentir liberdade e bem-estar físico”

Correr enquanto o corpo e a mente a deixarem
Como acontece com a maior parte dos corredores, Florinda pensa correr enquanto o corpo e a mente a deixarem. “Correr não é apenas um desporto para mim, é parte da minha vida, uma forma de me sentir viva, de superar desafios e de aprender sobre mim mesma todos os dias… e de me acalmar!
Não me coloco limites rígidos; acredito que enquanto houver saúde, motivação e prazer em cada treino e corrida, continuarei a correr. Cada quilómetro é uma oportunidade de crescimento, alegria e conquista pessoal”.
Saber ouvir o corpo para evitar lesões
Não dispensa os exames médicos de rotina e não tem sido visitada por lesões graves. “Como qualquer atleta, já tive algumas pequenas sobrecargas ou tendinites ocasionais, mas sempre consegui recuperar com descanso, fisioterapia e atenção aos sinais do corpo. Acredito que ouvir o corpo é tão importante quanto treinar; saber parar, recuperar e cuidar de nós mesmos, faz toda a diferença para uma carreira duradoura no atletismo”.

Já quanto à alimentação, Florinda procura manter uma alimentação equilibrada e consciente, incluindo frutas, legumes, hidratos de qualidade e proteínas suficientes para suportar os treinos e a recuperação.
Tem ainda a devida atenção com a hidratação e evita excessos desnecessários. “Para mim, a alimentação é uma forma de respeitar o corpo e garantir energia e saúde para cada corrida, sem perder o prazer de comer bem”.
“Cada meta cortada traz consigo uma história única e uma sensação de realização que não se compara a nada”
Maratona de Atenas
Os seus projetos futuros na modalidade passam pela melhoria das marcas pessoais, continuar a participar em trails e preparar-se para uma nova próxima maratona que bem poderá ser a Maratona de Atenas, um dos seus sonhos desportivos.
E se não estivesse no atletismo, qual seria a modalidade alternativa? Provavelmente a nataçãoou ociclismo. “Gosto de desportos de resistência, que exigem persistência e força mental, mas que também permitem sentir liberdade e bem-estar físico. Talvez tivesse encontrado nesses desportos, a mesma paixão e desafio que o atletismo me proporciona”.

Futuro promissor na modalidade a nível amador
Florinda vê um futuro promissor para o atletismo em Portugal, especialmente a nível amador, com um grande crescimento nos últimos anos. “Cada vez mais pessoas se interessam por correr e participar em provas, o que fortalece a comunidade e traz visibilidade à modalidade”.
Ainda assim, pensa ser necessário haver mais apoio a atletas e clubes, tanto em infraestruturas como em programas de formação e orientação, “para que o atletismo continue a evoluir e a inspirar novas gerações. O potencial existe, e a paixão pelo desporto continuará a impulsionar o atletismo no nosso país”.
“O mais difícil é começar, mas depois disso, o corpo, a mente e o coração mostram-nos o caminho. Cada treino, cada prova e cada desafio é uma oportunidade de crescimento, superação e descoberta pessoal”

Entreajuda e camaradagem no mundo das corridas
No mundo das corridas, Florinda aprecia particularmente o espírito de entreajuda e camaradagem entre os atletas, mesmo em competição. “Gosto das amizades que se criam, do apoio mútuo e da energia que cada prova transmite”.
Considera também que a corrida é uma forma de superação pessoal. “Cada quilómetro é uma oportunidade de desafiar os nossos limites e de sentir orgulho pelo esforço feito. No fundo, cada meta cortada traz consigo uma história única e uma sensação de realização que não se compara a nada”.
“O atletismo ensinou-me disciplina, resiliência e a alegria de ultrapassar limites. Mas também me trouxe amizades, momentos de partilha e memórias inesquecíveis”
Sugestões para uma melhor organização das provas
Florinda dá quatro sugestões para uma melhor organização das provas:
– Respeito pelos horários de partida;
– Percursos bem sinalizados, para que todos os atletas se sintam seguros e orientados;
– Apoio logístico adequado, especialmente nos abastecimentos e pontos de hidratação, garantindo conforto e segurança;
– Comunicação clara antes e durante a prova, para que os participantes saibam exatamente o que esperar.

“São pequenos detalhes que fazem uma grande diferença na experiência do atleta e ajudam a tornar cada prova ainda mais agradável e motivadora”.
Quando se esqueceu do dorsal no Campeonato Europeu de Pescara
Não faltam histórias à nossa entrevistada. Uma delas aconteceu no Campeonato Europeu de Masters em Pescara. Florinda ia correr a prova de 10 km, a meio da tarde. De manhã, preparou-se com calma, chegou cedo ao local da prova e fez o aquecimento sem pressa. Mas, quando trocou o equipamento, reparou que se tinha esquecido da camisola oficial e do dorsal!!!
Faltavam apenas 30 minutos para o início da competição e o alojamento ficava distante. “Foi uma verdadeira loucura: com a ajuda do Team Leader português, consegui arranjar outro dorsal que tive de pagar e um amigo emprestou-me a camisola oficial. No final, consegui chegar à meta mesmo a tempo e correr a prova”.

“Correr é mais do que um desporto: é um estilo de vida, uma forma de estar no mundo e de acreditar em nós próprios”
Quando se perdeu num trail
Esta passou-se numa das suas primeiras provas de trail e o que lhe aconteceu, tem acontecido a muitos corredores. Ela perdeu-se com um pequeno grupo e claro, acabaram por correr mais quilómetros do que o previsto. “Hoje rimos sempre dessa aventura!”
Para Florinda, “Estas situações mostram que, mesmo em momentos de stress ou imprevistos, é possível manter a calma, improvisar e seguir em frente e ainda guardar histórias para recordar com sorriso”.
Nunca é tarde para começar a correr

A terminar, a nossa entrevistada quis deixar uma mensagem a todos aqueles que começaram ou pensam começar agora a correr. “Gostaria de deixar uma mensagem a todos que estão a começar ou que pensam em iniciar no atletismo: nunca é tarde para dar o primeiro passo.
O mais difícil é começar, mas depois disso, o corpo, a mente e o coração mostram-nos o caminho. Cada treino, cada prova e cada desafio é uma oportunidade de crescimento, superação e descoberta pessoal.
O atletismo ensinou-me disciplina, resiliência e a alegria de ultrapassar limites. Mas também me trouxe amizades, momentos de partilha e memórias inesquecíveis.
Correr é mais do que um desporto: é um estilo de vida, uma forma de estar no mundo e de acreditar em nós próprios. E, enquanto for possível, continuarei a correr e a inspirar quem me rodeia”.

