A norte-americana Molly Seidel teve uma carreira brilhante nas pistas de atletismo e corta-mato. Teve depois uma grande estreia na maratona, aproveitando a sua primeira tentativa na distância para conquistar o segundo lugar nas seletivas olímpicas nacionais de 2020 e garantir uma vaga nos JO de Tóquio. Um ano depois, e apenas na sua terceira maratona, ela alcançou uma medalha de bronze histórica nos Jogos Olímpicos.
Enfrentou depois uma série de lesões e momentos de baixa emocional que quase a fizeram abandonar o atletismo. Então, uma mudança literal de cenário reacendeu a sua paixão pela corrida.

Em janeiro deste ano, Molly Seidell, de 31 anos, marcou o início de um novo capítulo nas provas de trail com uma vitória e um novo recorde do percurso na Banderas 50k, no Texas, antes de subir de nível mais uma vez, na famosa e competitiva Black Canyon 100k, no Arizona. Em fevereiro, enfrentando algumas das melhores atletas do mundo do trail, Molly Seidel conquistou o quarto lugar e garantiu um cobiçado “Golden Ticket”, que lhe assegura uma vaga na grande ultramaratona Western States Endurance Run de 100 milhas.
Enquanto recupera da Black Canyon, ela deu sete conselhos que aprendeu até agora sobre trails e ultramaratonas (e sobre a vida).
1. Pode precisar de mais eletrólitos e definitivamente precisa de mais carbohidratos
Antes de começar a correr em trilhos, eu era muito negligente com os eletrólitos. Nunca tomei eletrólitos numa maratona, simplesmente não é necessário. Não dei a devida atenção e isso causou-me problemas em Bandera, porque fiquei com falta de sal e vomitei sem parar durante três quilómetros. Foi uma verdadeira tortura chegar à linha de meta. Foi uma dura lição, que me motivou a trabalhar com uma nutricionista, Stephanie Howe, e a dedicar tempo para praticar a ingestão de eletrólitos e ajustar a nossa estratégia para Black Canyon. É preciso ser quase religioso com a forma como o corredor ingere a sua nutrição e hidratação. Agora, estou a fazer a ingestão de 80 gramas de carbohidratos por hora.
2. Reabasteça as suas garrafas sempre que possível
Cometi o erro, logo no início do Black Canyon, de não reabastecer a minha garrafa de água no posto de apoio da Mina Gloriana (quilómetro 38). E aprendi da pior maneira que não ia ter água suficiente para chegar ao próximo posto de apoio. Em Bandera, havia 16 quilómetros entre cada um dos postos de apoio que eu precisava de aceder. Já no Black Canyon, às vezes a distância era de 32 quilómetros, e eu fiquei sem água. Então foi difícil. Não é que eu esteja a demorar nos postos de apoio, mas de agora em diante, vou com certeza parar e reabastecer as minhas garrafas
3. Leve um marcador de ritmo (se permitido)
Não levei a minha própria ‘lebre’para a Black Canyon, o que percebi ser um erro de principiante. Não tinha noção da importância disso. Estava a tentar fazer-me forte, pensando ‘Não acredito em lebres, vou só correr’, e aí, depois de 48 quilómetros, pensei ‘Seria ótimo ter agora uma lebre’. Definitivamente, subestimei o tempo que passamos sozinhos lá fora. Ter outra pessoa para acompanhar o ritmo, ajuda a ter uma noção de esforço.
Por sorte, um dos meus amigos de Flagstaff, Craig Hunt, que costumava inclusive acompanhar-me em muitos dos meus treinos antes de Tóquio, estava a correr na prova masculina. A corrida dele acabou por não dar certo e eu alcancei-o por volta do quilómetro 67. Ele imediatamente abandonou a sua própria prova e acompanhou-me por quase 19 quilómetros, o que foi uma atitude incrível e muito gentil da parte dele. Ter o Craig lá foi um dos principais motivos pelos quais consegui continuar a esforçar-me. Sou grata a pessoas que estão dispostas a doar a sua energia para correr comigo na mata.
4. Os amigos deixam-te mais rápido
Do ponto de vista da comunidade, fiquei impressionada com a recetividade de todos. As maratonas são extremamente intensas e podem ser um pouco competitivas. Nas ultramaratonas, fiquei admirada com a camaradagem, mesmo dentro da própria prova. Há uma amizade genuína porque todos reconhecem o quão difícil é o que estamos a fazer. Não parece um jogo de soma zero. Espero que isso não se perca à medida que a modalidade se torna mais elitista. Cheguei a deixar cair um dos meus frascos de gel por volta do quilómetro 11 ou 13, e um dos meus concorrentes voltou e apanhou-o para mim! Eu disse literalmente: ‘Depois da prova, eu pago-te uma cerveja.’
5. Na dúvida, continue a persistir
Em Black Canyon, passei por um período de 32 quilómetros em que me senti péssima. Do quilómetro 32 ao 64 foram difíceis, pois estava bastante desidratada. Foi nesse trecho que as três primeiras classificadas me ultrapassaram. No quilómetro 51, eu disse ao meu treinador (Cliff Pittman): ‘Não sei se consigo. Talvez hoje eu tenha que sobreviver até ao final.’ Ele respondeu: ‘Não, tu estás a ir muito bem.’ Eu sentia a minha inexperiência em corrida em trilhos. A minha condição física estava ótima, mas as minhas pernas estavam destruídas por causa da descida técnica em alta velocidade. No quilómetro 51, elas estavam acabadas. Eu não sabia como conseguiria correr mais 48 quilómetros com elas! Acabou por ser um exercício mental de: ‘Ok, isto é muito difícil, não é mais divertido, preciso de persistir.’ Foi uma boa experiência ver que as coisas podem piorar e que podes recuperar.
6. Esteja preparado para resolver problemas
Correr em trilhos tem muito mais a ver com a sua capacidade de improvisação e a sua disposição para lidar com o caos da situação. Às vezes, a maratona parece um pouco estéril. Em algum momento de uma ultramaratona, as coisas vão ficar complicadas, isso faz parte. E quem souber lidar melhor com isso vai sair vitorioso.
7. Correr em trilhos é realmente divertido
Desde Tóquio, tive mais momentos difíceis do que bons. Há um ano, eu estava a pensar em retirar-me porque o meu corpo estava muito debilitado pela maratona e eu estava realmente esgotada. Eu simplesmente, não via uma saída. A corrida em trilhos salvou-me. Ela deu-me uma oportunidade de redescobrir meu amor pelo atletismo e sentir-me novamente eu mesma.
Cruzar aquela linha de meta foi o culminar de anos de incerteza… foi muito gratificante pensar: ‘Rapariga, eu amo profundamente o que estou a fazer.’ Veio desta estranha crença interna de: ‘Ei, acho que posso ser muito boa nisto e acho que serei feliz a fazer isto.

