A polémica sobre a decisão da Federação em criar uma licença para quem corre, está para durar. O comunicado da APOPA que a Revista Atletismo divulgou recentemente, tal como o comunicado da Federação Portuguesa de Atletismo, tem merecido muitos comentários. O conhecido atleta popular e também ele, organizador de provas, Fernando Andrade, respondeu a alguns comentários. Eis a sua resposta.
Do Comunicado da APOPA
(Associação Portuguesa de Organizadores de Provas de Atletismo)
No primeiro texto que escrevi sobre esta polémica matéria, dei-lhe o título de “Do desdém à cobiça”, mas, por algumas reacções que tenho visto ao comunicada da APOPA sobre a impugnação da controversa medida de federar à força quem só gosta de participar nas provas que bem lhe apetecer, vejo que, apesar da cobiça, o desdém continua.
Na partilha que a Revista Atletismo fez no FB do referido comunicado, aparecem pessoas (alguns até conheço e me surpreenderam com o que disseram) a tomar posições na mesma linha da direcção da FPA, desvalorizando e achincalhando a APOPA e revelando claramente o que pensam sobre as Provas Populares.
Um, disse que “a APOPA era um grupo de tolinhos” (num encómio ao nível do mano Castro a Aurora Cunha) “que nunca realizou qualquer actividade válida em nome dos organizadores e do Atletismo”. A este senhor, que se identifica como Mário José, que eu não tenho o prazer de conhecer (e ele dirá o mesmo de mim), falta-lhe alguma moderação no que diz. Os tais “tolinhos” da APOPA são os organizadores das provas que conseguem mobilizar milhares de corredores sem que a “dona da modalidade” tivesse tido qualquer interferência nisso para além do carimbo no regulamento. Não fossem os organizadores, a FPA nada tinha feito contra o sedentarismo e a criação do hábito saudável da Corrida que, felizmente, vai, cada vez, atraindo mais gente. Claro que os “tolinhos” -e bem- impugnaram a Assembleia Geral, porque tendo assento na mesma, não foram ouvidos sobre o assunto e, tendo apresentado requerimento à mesa para que o ponto fosse retirado da ordem de trabalhos, para ser devidamente estudado e voltar posteriormente, entenderam não lhe dar provimento e tudo seguiu, num “quero-posso-e mando” ignorando completamente a posição da APOPA . “Uns tolinhos”, fazer caso deles para quê?
Outro, disse que a impugnação era “uma cambada de hipocrisia de quem não tem dois dedos de testa” (Prof. José Barros-?-, não esperava isto de si) e que não veem os preços exorbitantes das inscrições nas provas e que agora vêm armados em vítimas”. E, mais à frente, “que os populares não deviam correr em provas onde correm atletas federados” e conclui com esta pérola ” é o nacional humbiguismo ao mais alto nível”. Este “humbigo”em que até houve a criatividade para lhe acrescentar letras (um piercing, vá), parece-me ser o da FPA, que chama a si dividendos de algo que não construiu. Estamos de acordo numa coisa: os atletas populares não devem correr nas provas com atletas federados. Só que as provas são organizadas para os populares. Os federados são aceites pela organização. Quando se trata das provas de pista, organizadas pela Federação, os populares não metem lá os pés. Nem querem. Ao invés, os federados aparecem nas provas populares e dão-lhe qualidade, sem ponta de dúvida, mas é porque vwem aí uma oportunidade de “ganharem algum” -e com toda a justiça, diga-se. Agora, experimentem perguntar aos organizadores se pretendem organizar uma prova para populares ou para federados e, de certeza que não serão surpreendidos pela resposta.
Outro ainda (Alexandre Amaro) diz, a dada altura, que “nenhum organizador pode fazer provas sem a supervisão e autorização da Federação). Disse-o de forma peremptória, mas sem acrescentar nada àquilo que todos sabem. E que ” não andamos a brincar às corridinhas”. Não andamos a brincar às corridinhas? A FPA concerteza que não! Mas os milhares de corredores que pretendem taxar, andam! Ora deixem em paz os que andam a brincar às corridinhas. E diz ainda “os organizadores já muito mamaram à conta do Atletismo português, sem existir regras”. Lá está a tal linguagem, trazida por “ventos elísios”. Ora, os organizadores que têm ganho algum dinheiro com as provas, tem sido à conta do trabalho que desenvolvem e a que a Federação poderia muito bem ter feito e não fez. Desvalorizou, deixou espaço para que outros o fizessem e, depois de feito, vem dizer : “-isto é nosso!”.
Triste, muito triste, que se arroguem o direito de colher sem terem semeado e sem falarem com quem a semeou.
E volto a dizer que não se trata de mesquinhez. Trata-se de um direito a resistir a uma imposição sem diálogo, feita de forma precipitada e arrogante.
Custa a crer que, em vez de reconhecer que, se calhar, houve precipitação e as coisas não foram bem feitas, a FPA se mantenha inflexível numa medida que ainda não sabe como vai conseguir pôr em prática.
Vamos falando.
Muito se tem falado a propósito da taxa que a Federação pretende implementar para os atletas populares não federados.
Há opiniões a favor e há opiniões contra. Normalíssimo. Direi apenas que uma decisão desta envergadura mereceria um debate mais amplo e aprofundado antes de ser efectivada.
O que não é normal é, por causa de uma simples divergência de opinião sobre um tema – que, de resto, não é consensual – assistirmos, chocados, a um ataque soez a uma ex-grande atleta como é Aurora Cunha, por outro ex-grande atleta que foi Dionísio Castro.
Tenha vergonha na cara Dionísio Castro e, se tem um pingo de dignidade, peça desculpa à Aurora Cunha.