Pontos de vista: Órfãos

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Embora há alguns anos afastado das pistas, Moniz Pereira continuava a ser a grande referência do atletismo para quem acompanha de perto o fenómeno do desporto, em Portugal. Por isso, pode-se considerar que o seu desaparecimento deixou a família do atletismo órfã, já que foi para muitas gerações de atletas, treinadores e dirigentes o grande exemplo e o modelo de dedicação e empenho à modalidade. Pela sua mão, o atletismo conseguiu sair do quase anonimato para a ribalta, conquistando o espaço e os meios que o fizeram crescer e desenvolver-se, até aos dias de hoje.

Quem teve o privilégio de conviver com ele mais de perto, sabe bem que raramente abria mão das suas opiniões ou pontos de vista, defen­dendo-os à exaustão, o que originava com frequência discussões bem acesas. Porém, mesmo que a tensão tivesse sido grande, no dia seguinte ou na primeira oportunidade, era o primeiro a quebrar o gelo, procurando retomar o diálogo, o que ajuda melhor a entender a sua forma de ser.

Muitos foram os episódios que com ele protagonizámos, ou a que tivemos oportunidade de assistir, mas há um marcante, que ajuda a caracterizar o seu perfil e a forma impiedosa como defendia a modalidade. Certo dia, em 1976 (em pleno PREC – Processo Revolucionário Em Curso), ano em que o Estado Português decidiu apoiar, pela primeira vez a preparação para uns Jogos Olímpicos, no caso os de Montreal, em pleno Estádio Nacional, depois de uma das várias tentativas falhadas para a obtenção de mínimos, ouviu-se a determinada altura uma voz vinda da bancada, que bradava a plenos pulmões: “Seus chulos, andam aqui a gastar o dinheiro do povo…” . Perante tal provocação, Moniz Pereira, sobe a bancada a correr dirigindo-se ao acusador. Temendo o pior, alguns dos que estávamos por perto seguimo-lo. E qual não foi o espanto quando o vimos meter a mão ao bolso e retirar uma moeda de dez centavos, que entregou ao indignado, dizendo: “Aqui está o seu contributo para a preparação olímpica, pelo que até ao fim dos seus dias não poderá voltar a abrir a boca contra estes atletas”.

O seu espírito de humor e as metáforas que usava frequentemente para passar mais facilmente as mensagens, particularmente a alunos e a atletas, fizeram escola e continuam a ser citadas por muitos. Essas e muitas outras marcas dificilmente se apagarão da memória de quem o conheceu, pois era muito difícil ficar-se indiferente à sua figura.

Todos iremos sentir a sua falta, perpetuando-se como o Sr. Atletismo, epíteto pelo qual era conhecido.

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