As medalhas de Rui Silva não ficam no Sporting

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O atleta português deu uma entrevista ao Jornal Expresso onde fala de toda a sua carreira no atletismo e conta a razão da transferência para o Benfica depois de 20 anos no Sporting.

O projeto no Benfica, para os próximos dois anos, passa por competir, no entanto, Rui Silva que tem já 39 anos pretende ficar no clube e “ser treinador e secretário do projeto olímpico.” Ainda antes de abandonar o Sporting, Rui Silva já trabalhava no Benfica com um vínculo que não era o de atleta.

“Sim, mas em termos desportivos, enquanto atleta, eu tinha uma ligação com o Sporting, que termina entre 15 e 30 de outubro, que é o período de transferências. Efetivamente, no dia 1 de novembro eu mudo o meu vínculo de atleta, que era o único vínculo que tinha com o Sporting. As outras funções como secretário técnico e como treinador, comecei a exercê-las mais cedo, desde setembro, porque não tinha esse vínculo, nem contrato com mais ninguém.” disse ao Expresso.

Embora não considere ter sido “maltratado” na altura da saída do SCP, o especialista em meio fundo acha que a forma como o clube lidou com a transferência não foi a mais correta e que isso poderá ter impulsionado o mercado de transferências este ano.

“De certa forma fico contente por ter sido o precursor desta mudança no atletismo. Nunca me recordo de haver tantas mexidas sobretudo no âmbito desta rivalidade Benfica/Sporting. Este boost devia ser aproveitado pelos clubes e federação como rampa de lançamento, porque não devíamos estar tão agarrados, tão acomodados.” explicou Rui Silva.

Na entrevista, o atleta contou que não saiu por razões monetárias visto que no primeiro ano vai receber menos do que era o seu salário no Sporting. A verdadeira razão da sua saída, segundo o atleta, foi a sua família, “o seu doping”. Rui Silva é casado com Susana Silva, também atleta do Benfica. 

“Porque a minha mulher assinou por três anos com o Benfica e não ia ficar três anos com a convivência familiar ainda mais afetada. Entre janeiro e agosto há provas praticamente fim de semana sim, fim de semana sim. Para os poder acompanhar mais de perto não posso estar noutro clube, ainda por cima rival.” explicou Rui Silva.

“Se me dissessem que tinha de deixar de correr porque a minha filha, filho ou mulher precisavam de mim, eu deixava de correr, não tinha problema nenhum.”

A filha de ambos, Patrícia Silva também é atleta e o pai não descura estar presente nas competições dela.

Não posso estar no meio de atletas do Benfica equipado à Sporting, tenho consciência de que não é correto. Mas também não me quero sentir marginalizado e estar ali num canto a fazer sinais escondidos. A decisão passou por aí. Houve muito tempo para reverter o processo, mas o Benfica apostou em mim, coisa que o Sporting não viu.”

E como o Sporting não conseguiu reverter a situação a tempo, Rui Silva saiu e com ele irão as medalhas que ainda não foi buscar ao museu do Sporting: “Não é por desrespeito ao Sporting, mas vou buscar as minhas coisas. Já lá devia ter ido. Posso deixar uma recordação ou outra, mas as medalhas não. As medalhas pertencem a todos nós mas acho que fui eu que fiquei encarregue de tomar conta delas.”

Durante a entrevista, o atleta especialista em meio fundo criticou o facto do sistema escolar não ser adaptado aos desportistas de alto rendimento e o estado negativo a que chegou o meio fundo em Portugal.

“Temos de ser honestos, está muito mal. Em termos quantitativos e qualitativos. É mais fácil juntar um grupo de miúdos para treinar para 100m, comprimento, lançamento, do que pedir para dar três ou quatro voltas ao parque ou à pista. É preciso uma mentalidade diferente para o meio fundo e fundo.” clarificou Rui Silva.

Apesar de não criticar o trabalho da Federação Portuguesa, o atleta considerou que não está a ser feito o investimento na “mina que é o desporto escolar” e também não pôs de lado uma futura candidatura à FPA.

“Pode ser uma possibilidade. Até ao fim da minha carreira tudo é possível. Não vejo porque não.” disse ao Expresso.

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