Câmara Lisboa Clube/A promover a cidade e a autarquia sem apoios

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O Câmara Lisboa Clube foi criado em 1985 e tem atualmente 2.000 sócios. Joaquim Capelo é o atual presidente da Direção que tem em Daniel Antunes, o responsável pela Seção de Atletismo e Tesouraria. Tem 30 atletas a correr mais 8 no Triatlo. Não tem desde 2009, qualquer apoio financeiro da Câmara Municipal de Lisboa.

O Câmara Lisboa Clube é como o nome o indica, o clube dos trabalhadores da autarquia da capital. O clube surgiu do diálogo entre dois colegas de trabalho. Em Outubro de 1984, apareceu a primeira Comissão Instaladora que deu início ao processo de legalização. Em 15 de Abril de 1985, foram eleitos os primeiros Corpos Sociais que assinaram depois em 11 de Julho, em escritura notarial, a existência legal do clube.

Joaquim Capelo é o atual presidente do Câmara Lisboa Clube que tem dois mil sócios que pagam uma quota mensal de euro e meio.

Sede com excelentes condições com 18 Secções a funcionarem

Visitámos a sede do clube, com bar e excelentes condições para a prática de várias modalidades e um espaço cultural. Mas nem sempre foi assim. A primeira sede provisória foi no subposto de limpeza da Ajuda, raramente utilizada dado o seu estado de degradação. Seguiu-se depois em 1988, uma nova sede, também provisória, nas oficinas de Alcântara até que finalmente em 2002, o clube se mudou para a avenida do Brasil, numa instalação com cerca de 1.100 m2.

O clube tem atualmente 18 seções que movimentam 120 pessoas. A seção de Atletismo foi fundada em 1988 e tem atualmente 30 praticantes (6 federados) mais oito no triatlo.

Daniel Antunes, é o responsável da Secção e também o tesoureiro da Direção. O clube participa em provas de pista, estrada e montanha e conta com oito maratonistas. Não faltam condições a quem levar o atletismo a sério pois tem acesso gratuito à pista Moniz Pereira e ao conhecido treinador Américo de Brito, que também tem feito parte de várias Direções e é o responsável pela preparação de alguns dos atletas.

“Não exigimos nada em termos de resultados. Valorizamos sim o comportamento social dos atletas”

Zero de subsídios

Quanto a apoios financeiros, ficámos surpreendidos com a resposta de Daniel Antunes: “zero euros! Temos de fazer uma grande ginástica financeira”. É para nós uma situação surrealista pois é a primeira vez que conhecemos um “clube de empresa” que não é apoiado por esta.

O clube sobrevive apenas com as quotas dos sócios. Mas até 2009, havia um protocolo com a autarquia que apoiava o clube em 80 mil euros. No entanto, este apoio acabou com a criação dos Serviços Sociais. Houve quem quisesse a integração do clube nos Serviços Sociais e como tal não foi aceite, o subsídio foi cortado. “O clube pertence aos sócios”, disse-nos Daniel Antunes.

O orçamento anual da Secção ronda os dois mil euros e o apoio aos atletas passa pelos equipamentos, fatos de treino e inscrições nas provas onde o clube participa. “Não podemos pagar as inscrições todas, elas são caras”. Os atletas têm ainda à disposição um autocarro de 28 lugares e uma carrinha, esta mais para o triatlo.

foto-camara-2CÂMARA LISBOA CLUBE

Concelho: Lisboa

Ano fundação: 1985

Presidente: Joaquim Capelo

Sócios: 2.000

Atletas: 30 (6 federados) + 8 no Triatlo

Técnicos: 1

Orçamento: 2.000 euros

Comportamento social dos atletas

Mais importante do que os resultados, taças ou medalhas conquistadas, Daniel Antunes valoriza o comportamento social dos seus atletas. “Aqui, o espírito é mais de participar. Não exigimos nada em termos de resultados. Valorizamos sim o comportamento social dos atletas. Onde vamos, damos nas vistas pelo nosso espírito como equipa. Gostam de nós”.

O nosso entrevistado dá-nos o exemplo da estafeta de 530 km em Espanha, ligando Madrid ao santuário de Torreciudad, nos Pirinéus Aragoneses. Deixou-lhe muito satisfeito o comentário espanhol que ouviu na primeira vez que o clube lá foi: “São bons atletas mas como pessoas, ainda são melhores!”.

Aventura 1 em Marrocos

Quanto a estórias, Daniel Antunes contou-nos uma passada consigo em 1990 nos Jogos Mundiais da Paz em Marrocos, a convite de Jorge Sampaio. Nesses Jogos, Portugal esteve representado pelas cidades de Lisboa, Coimbra e Loulé.

A delegação portuguesa ficou na cidade de Fez. O atletismo começou com uma prova de corta-mato na distância de 6 km. Conta-nos Daniel: “Eu andava bem no corta-mato. A prova era a 50 km de Fez, às 10 h mas às 8 h, ainda não tínhamos partido. O autocarro da Organização chegou muito atrasado e lá fomos, muito lentamente.

Daniel reclamava com o condutor pela lentidão, que assim nem teria tempo para aquecer. Mas ficou ainda mais furioso quando o condutor lhe disse: “Aquecer? Eu fiz marcha e aquecia ao sol!”.

Quando o autocarro chegou ao local da partida, já havia 300 metros de prova, claro que Daniel já não participou. “E eu tinha-a ganho, vi o nível dos atletas presentes”.

Aventura 2 em Marrocos

Desiludido, Daniel preparou-se para a prova de 15 km no dia seguinte e que se disputava em Fez. Pelo menos, não havia o perigo de chegar outra vez atrasado. A prova teve cerca de 20 mil participantes mas a desorganização foi incrível. “A prova começou atrasada com uma temperatura de 40ºC, muitos participantes a rezarem antes da partida. Lá partimos mas surgia gente de várias ruas a meterem-se no percurso. Aos 6 km, íamos três na frente quando a prova foi suspensa e mandaram todos para trás! Desisti, todo desidratado”.

Finalmente no terceiro dia, uma prova na pista. Depois do que lhe sucedeu nos dois dias anteriores, Daniel apostou na prova de 3.000 metros onde conseguiu uma medalha de prata. Mas contou-nos que mesmo na pista, havia gente a fazer batota!

“São bons atletas mas como pessoas, ainda são melhores!”

foto-camara-3Carrera 500 km Tajamar/Torreciudad

Esta prova que referimos acima, parte de Madrid e chega a Torreciudad, em Huesca, com a duração de 48 horas. É considerada a corrida mais comprida da Europa, com 530 km em estafeta que mobiliza cerca de 1.500 corredores. Durante o percurso, são gastos 400 kg de comida, 700 kg de fruta e 2.000 litros de bebidas isotónicas e água. Os corredores podem correr os quilómetros que desejarem e ao chegarem a Torreciudad, levam em procissão a imagem da Virgem dos desportistas pela esplanada do Santuário. Este ano, será a 22ª edição e terá o seu início em 23 de Setembro.

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