Corredor sabe o que faz! Sabe?

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O contraste com as antigas e ainda prevalentes teorias sobre a fisiologia do exercício é que os modelos anteriores não previam a performance como algo controlado pelo sujeito ‘consciente’ ou ‘inconsciente’, e sim limitada por alguma perda de homeostase (equilíbrio fisiológico), geralmente pela redução de algum substrato (como glicogénio) ou o acumular de metabólitos, entre eles o lactato, aumento da temperatura corporal, queda de neuro-transmissores e diversos outros.

Segundo esta nova teoria, conhecida como “Central Governor Model” (“modelo de controlador central”, em tradução livre), a nossa performance é regulada pelo cérebro, que nunca (em situações livres de anomalias) permite que o corpo saia da sua homeostase até um ponto em que não consiga mais retornar. Com isso, o cérebro passa a integrar todas as informações sobre a distância percorrida, distância a percorrer, experiências prévias na situação de esforço, informações provenientes da periferia do corpo, sobre stocks de glicose, temperatura corporal, acumular de metabólitos, etc. A partir daí, gera uma “sensação de fadiga” que irá ditar o seu ritmo de corrida no próximo passo, e assim sucessivamente ao longo de toda a corrida.

Isso é o que chamamos de “antecipação”. Ou seja, o atleta sabe de onde vem, para onde vai e que ferramentas terá para isso. A partir desse ponto, “antecipa” o quanto poderá fazer de esforço (=velocidade) para cumprir o seu objetivo no menor tempo possível, sem, no entanto, debilitar o seu organismo.

“Sensação de fadiga” entre aspas porque, segundo esta nova teoria, a fadiga não é mais um evento fisiológico (perda real de homeostase) e sim uma manifestação consciente de uma informação gerada pelo seu subconsciente, onde são feitos todos os cálculos sobre performance (pense bem sobre o que é a dor, se não uma sensação).

De acordo com os cálculos feitos, esta sensação de fadiga pode ser mais ou menos intensa (de acordo com o quanto o atleta está próximo de ultrapassar uma zona de distúrbio “saudável” de homeostase), e isso fa-lo-á correr mais rápido ou mais devagar.

Em curtas palavras, a sua performance passa a ser, como já sabe, uma batalha entre o seu “anjinho” e “diabinho” interiores, um dizendo para acelerar e o outro dizendo para diminuir o ritmo (vamos aceitar que o “diabinho” é o responsável por lhe dizer para diminuir, ok?). Segundo esta nova teoria, o “anjinho” seria a sua vontade consciente de correr mais rápido, e o diabinho seria o seu controlador central. O resultado da briga entre os dois é sua velocidade de corrida, passo a passo.

Entre o “diabinho” e o “anjinho”

Mas como se aplica isso no seu treino? Vamos a alguns pontos importantes:

1) O seu corpo não lhe deixa utilizar o seu máximo “fisiológico” ou real, pois seria muito perigoso.

Assim, quando treina, fá-lo para diminuir este espaço de reserva que existe entre a sua capacidade fisiológica e a sua capacidade consciente. Isto é uma mudança de paradigma. Obviamente, ao treinar para diminuir esta reserva, o seu corpo melhora a sua capacidade real também para prevenir que chegue perto demais dela.

2) O seu corpo trabalha numa base de cálculos passo-a-passo. Por isso, as pequenas variações de velocidade que ocorrem durante a corrida são saudáveis e não devem ser evitadas. Estudos já comprovaram que corredores são incapazes de repetir a performance de um teste de 10 km num ritmo auto-selecionado, quando tentam utilizar a velocidade média do teste anterior de forma constante.

3) Conhecer o que se vai fazer é muito mais importante. Aqui se começa a compreender porque pode ser tão desastroso descobrir que existe uma montanha no meio da prova somente quando começar a subi-la.

4) A repetição de séries e treinos torna-se importantíssima, pois permite que o seu corpo “reconheça” aquele desconforto e vá aos poucos permitindo que utilize mais as suas capacidades. A ideia básica é a seguinte: se já fez uma vez e não teve problemas, possivelmente pode fazer uma segunda um pouco mais forte e assim por diante.

5) O treino passa a ser baseado em ritmo, pois é isto basicamente o que seu sistema irá interpretar. Basear o seu treino em ritmos, dentro deste paradigma de treino, faz muito mais sentido do que pensar em zonas de limiares.

Força do pensamento?

Um ponto muito importante a considerar, caso se tenha empolgado com estas ideias e esteja disposto a incorporá-las no seu plano de treinos, é que dentro desta conceção de fisiologia, a fadiga é uma sensação, não um evento.

Porém, vamos deixar claro que não é possível correr mais rápido somente com a força do pensamento. O facto da fadiga ser uma sensação não faz ela menos real. Portanto, não pense que algumas horas de intensa concentração no conforto do lar, de forma alguma irão substituir o treino longo de domingo!

Esta nova teoria ganhou força nos últimos anos, quando foi mais plenamente desenvolvida por investigadores da África do Sul. De lá para cá, vem ganhando apoio na comunidade científica. Porém, bem mais forte tem sido a resposta positiva de treinadores e atletas, muitos começando a achar que finalmente as teorias científicas começam a fazer sentido frente aos que eles experimentaram ao longo das suas vidas.

O “muro” da maratona

Após uma maratona, são comuns relatos de corredores que encontram o chamado “muro”, instante agudo onde a performance simplesmente desaba. Como podemos explicar este fenómeno com base nas teorias de antecipação, onde isto deveria estar previsto?

O muro pode ter diversas origens e na verdade, ele é um sintoma de algo maior que aconteceu nalgum sistema. As explicações mais usuais são a diminuição dos níveis de glicogénio muscular, perda de elasticidade e dano muscular.

Apesar do ritmo ser calculado em antecipação, muitas vezes pode não ser possível evitar que o glicogénio muscular seja diminuído ou que a musculatura sofra danos. O comum é que o corpo envie sinais de cansaço ao indivíduo antes do “muro”, porém estes estímulos podem ser mais facilmente sobrepostos pela

vontade consciente, levando a uma perda apenas gradual de ritmo. Existe um instante, no entanto, em que o cérebro envia um estímulo tão poderoso que não pode ser vencido, obrigando o corredor a diminuir consideravelmente a sua velocidade a fim de preservar a sua homeostase.

De: Fernando Beltrami

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