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Home Running Atleta do Pelotão

Marta Soares/Uma Penta da Covilhã com a paixão do trail e Serra da Estrela

Nuno Oliveira by Nuno Oliveira
2026-03-01
in Atleta do Pelotão, Destaque, Entrevista, Running
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Marta Soares/Uma Penta da Covilhã com a paixão do trail e Serra da Estrela
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Marta Soares tem 46 anos e é atleta do Penta Clube da Covilhã. O trail e a Serra da Estrela são a sua paixão no mundo das corridas. Sendo enfermeira, não tem sido nada fácil conciliar a vida profissional e familiar com as corridas. Gosta de partilhar as suas corridas na página de instragram runningwhiht_marta “

Marta Soares tem 46 anos e é natural de Meimoa, concelho de Penamacor. É enfermeira parteira do bloco de partos da ULS Cova da Beira, na Covilhã.

O atletismo faz parte da vida de Marta desde a escola. “O Prof. de Educação Física, Carlos Boucho conseguiu reunir e motivar um grupo de jovens a participar, quer nas provas de Desporto Escolar, quer nas provas de atletismo que iam decorrendo no distrito de Castelo Branco. Apesar de representarmos um concelho pequeno, conseguimos formar uma equipa feminina que se manteve até terminarmos o ensino secundário”.

Marta suspendeu depois a prática do atletismo, quando entrou no ensino superior. O regresso deu-se mais de 20 anos depois quando em 2015, voltou a correr. Inicialmente, apenas como forma de praticar a atividade física em complemento com outras atividades. “Rapidamente percebi porque tinha sido apaixonada pela corrida. Fui alcançando desafios pequeninos e pouco a pouco, consolidando e aumentando a distância. Quando cheguei aos 10 km, achei que estava na altura de participar numa prova. Não pela competição, mas pela sensação de superação”.

“Foi bastante positivo integrar uma equipa, pois os momentos de partilha no treino e nas provas, são muitos agradáveis e ajudam-nos a crescer e a evoluir, não só como atletas, mas também como pessoas”

Estreia em 2016 no Grande Prémio de Atletismo Cerejeiras em Flor

A estreia numa prova oficial teve lugar em abril de 2016, no Grande Prémio de Atletismo Cerejeiras em Flor, nas Donas, concelho de Fundão. “Escolhi esta prova para ser a primeira, pois já tinha participado nela enquanto atleta de formação. Apesar do percurso ser ligeiramente diferente, permitiu ativar memórias antigas. Além do desafio pessoal de participar pela primeira vez numa prova, teve associado este sentimento especial”.

Marta foi participando nalgumas provas da região com o seu marido e acabou por integrar os Leões da Floresta, também da Covilhã. “Ponderei bastante porque queria correr sem compromisso, apenas com o objetivo de superação pessoal. Neste momento, reconheço que foi bastante positivo integrar uma equipa, pois os momentos de partilha no treino e nas provas, são muitos agradáveis e ajudam-nos a crescer e a evoluir, não só como atletas, mas também como pessoas”.

Atleta do Penta Clube da Covilhã

Marta representa atualmente o Penta Clube da Covilhã. Faz habitualmente 3 a 4 treinos de corrida por semana e dois treinos semanais no ginásio, onde faz treino de força e algum treino específico para complementar a corrida.

Treina por vezes sozinha mas fá-lo muitas vezes com o seu marido, que “me ajudou a redescobrir a paixão pela corrida. Uma vez por semana, treino em grupo”.

Amaro Teixeira, que é o presidente do Penta Clube da Covilhã, é o seu treinador, sendo o responsável pelo planeamento de treino dos atletas do clube.

“Tenho especial carinho pelas provas realizadas na Serra da Estrela, porque como é próxima da minha residência, é a montanha onde costumo treinar e aquela que considero a minha Serra”

Muito difícil conciliar atletismo com vida profissional e familiar

Marta corre em média 20 provas por ano, divididas entre a estrada mais no distrito de Castelo Branco, e o trail. “Participo no Circuito Nacional de Trail da ATRP e faço também algumas provas do Circuito Nacional Sprint, além de algumas provas de trail realizadas aqui na região”.

Mãe de dois filhos com 18 e 12 anos, enfermeira com horários complicados, não tem sido fácil a Marta conciliar os treinos e corridas com a sua atividade profissional e familiar. Eis a sua experiência: “A gestão dos treinos, das provas e da vida profissional e familiar, é bastante desafiante. Devido à minha atividade profissional, tenho de trabalhar também aos fins de semana e feriados. Muitas vezes, não consigo cumprir o planeamento de treino, principalmente os treinos longos, que normalmente se realizam ao fim de semana. Como o horário de entrada no hospital é às 8 h, não consigo treinar antes de ir trabalhar, o que me obriga a treinar quase sempre ao final do dia/noite, depois de um dia de trabalho. Ao final do dia, é necessário gerir também as atividades desportivas dos meus filhos. Muitas vezes, encaixo o meu treino no período em que eles treinam. Ainda no que diz respeito à vida familiar, recorro com frequência aos familiares mais próximos para colaborarem nos cuidados com os meus filhos, para que eu e o meu marido possamos ir treinar ou participar nas provas.

Por vezes, tenho de solicitar trocas de turno aos colegas ou solicitar com antecedência ao meu superior hierárquico, folgas, nos dias das provas ou então fazer o planeamento das provas em função do meu horário.

Tento ir ajustando os treinos ao longo da semana em função da minha disponibilidade e dos meus horários de trabalho”.

Da Serra da Estrela ao Europeu de Atletismo de Veteranos em Pista Curta

Marta prefere o trail à estrada e à pista. “É a vertente da corrida que mais gosto de praticar. Gosto de provas mais técnicas e com percursos mais desafiantes”.

Considera a Serra da Estrela como a ‘sua’ serra. “Tenho especial carinho pelas provas realizadas na Serra da Estrela, porque como é próxima da minha residência, é a montanha onde costumo treinar e aquela que considero a minha Serra”.

Costuma treinar uma vez por semana na pista, onde faz treino mais específico, mas nunca participou em provas de pista ao ar livre. “Acho a pista muito monótona e normalmente associada a provas mais rápidas, que não são de todo as da minha preferência”.

Já participou em provas de corta-mato e em 2022, esteve presente no Campeonato Europeu de Atletismo de Veteranos em Pista Curta, que se realizou em Braga. “Uma experiência que guardarei também no meu álbum de provas e passagem pelo atletismo”.

Ainda não se estreou na maratona e a sua distância preferida passa pelos 30 quilómetros. “Apesar de ser um desafio, é a distância que consigo gerir já com alguma facilidade”.

Trail dos Abutres e Azores Bravos Trail, provas preferidas

Elege duas provas como as suas preferidas. O Trail dos Abutres, “por ter um percurso muito exigente tecnicamente, também pelo tipo de paisagens que percorremos, pela forma como toda a prova está estruturada e organizada”. E os Azores Bravos Trail, pela beleza natural dos trilhos.

Não tem uma prova que tenha menos gostado de participar. “Não há uma prova especifica. Há alguns trails, que têm poucos trilhos técnicos, muito estradão, que acabam por ser mais ‘rolantes’ que não me satisfazem tanto, porque não me permitem desfrutar e divertir tanto”.

“Não vou esconder que os pódios são o coroar da nossa entrega e da nossa dedicação”

Sonho a realizar na Maratona de Paris

Convidada a referir qual seria a sua “corrida de sonho”, aquela que gostaria um dia de fazer, Marta escolhe a Maratona de Paris, na companhia do seu marido. No trail, gostaria um dia de experimentar uma prova do circuito UTMB

“O trail running permite o que poucas modalidades permitem, a possibilidade de nos cruzarmos no trilho com os melhores atletas do país, com aqueles que temos como exemplo e inspiração”.

Rendida ao trail na sua primeira prova nos Trilhos dos Reis

Marta experimentou pela primeira vez o trail running em 2018, nos Trilhos Reis, em Portalegre. “Fiquei rendida logo nos primeiros quilómetros. O contacto com a natureza, o desafio do percurso que muda a cada quilómetro e o sentimento de entreajuda que se vive no trail, não existe nas provas de estrada. O trail running permite o que poucas modalidades permitem, a possibilidade de nos cruzarmos no trilho com os melhores atletas do país, com aqueles que temos como exemplo e inspiração. Estamos todos juntos na partida, partilhamos experiências, muitas vezes os primeiros atletas das distâncias mais longas passam por nós a um ritmo alucinante e nesses momentos, sabe muitos bem dar apoio a esses atletas”.

“A minha forma de estar na corrida é um exemplo e um legado que quero deixar aos meus filhos”

A camaradagem e as amizades feitas nas corridas

Para Marta, “os melhores momentos são os de camaradagem entre atletas, são as amizades que se constroem e que se alimentam da corrida.

Tenho na memória e no coração, as provas em que participei com toda a minha família, o meu marido e os meus dois filhos. A minha forma de estar na corrida é um exemplo e um legado que quero deixar aos meus filhos.

Não vou esconder que os pódios são o coroar da nossa entrega e da nossa dedicação. Tenho feitos alguns pódios por escalão, quer na estrada quer no trail running e venci duas provas de trail na classificação geral…(sem saber muito bem como). Por vezes durante a prova, o entusiasmo de conquistar lugares vai crescendo e com ele, a vontade de superação pessoal ajuda a atingir uma melhor classificação.”

“Para mim, a corrida serve para me manter saudável física e mentalmente, mas também para me divertir e me dar prazer”

Correr enquanto der prazer

Marta gostava de poder correr enquanto tal lhe desse prazer, desejo que se prolongue por muitos anos. “Para mim, a corrida serve para me manter saudável física e mentalmente, mas também para me divertir e me dar prazer e enquanto assim for, será para continuar.”

E se não estivesse no atletismo, que modalidade gostaria de ter seguido? “Experimentei outras modalidades durante a juventude, mas não me identifiquei com mais nenhuma. Gosto do treino de força no ginásio, que nesta fase da minha vida, também traz benefícios importantes”.

Os seus projetos futuros na modalidade passam por continuar a poder desfrutar dos trilhos e se possível, experimentar distância maiores.

Atenção devida à saúde e alimentação

Como profissional de saúde que é, Marta não descura os exames médicos de rotina. Faz anualmente um exame médico desportivo e tem acompanhamento regular pela fisioterapia/osteopatia.

As lesões tem-na visitado mas de fácil resolução. Há uns anos, uma fascite plantar obrigou-a a parar durante meses, tendo a recuperação sido lenta e trabalhosa.

Procura fazer uma alimentação equilibrada, não necessitando de nenhum cuidado adicional. “Não faço restrições e costumo brincar com os amigos e dizer que corro para poder comer mais um pouco. Nas vésperas das provas, faço uma gestão mais cuidada”.

”Muitas vezes, treinos e provas são momentos de reflexão e tomadas de decisões para a vida pessoal e até profissional”

Falta investir mais no desporto escolar e as novas taxas da Federação não ajudam

Para Marta, falta investir mais no desporto escolar. “Apesar de estarmos perante uma fase crescente de corredores amadores, a nível profissional não estamos a investir na formação nas escolas, por exemplo, a nível do desporto escolar… A realidade na nossa região é esta. Há apenas a participação em provas distritais, mas não se fomenta a prática continuada do atletismo nas escolas”.

Refere ainda a quebra de participantes ao longo da formação: “A nível de clubes, verificamos um número de elevado de participantes, mas que decai ao longo da formação, nomeadamente nos escalões femininos. Teremos de tentar agarrar esses atletas para obtermos resultados no futuro”.

Mostra-se ainda critica para com as taxas impostas pela Federação aos atletas não federados. “Também não ajuda, na minha opinião, à promoção da modalidade. Deveríamos estimular em vez de restringir”.

Viva a liberdade no mundo das corridas

No mundo das corridas, Marta aprecia particularmente a liberdade. ”Muitas vezes, treinos e provas são momentos de reflexão e tomadas de decisões para a vida pessoal e até profissional”.

Realça ainda o bom ambiente no mundo do trail. “Ainda que haja competição entre os atletas, no trail running o relacionamento entre os atletas e espírito de entreajuda que existe, é para mim o mais importante na conquista do percurso até à meta.”

Nas provas, Marta valoriza a forma como o percurso está desenhado e a forma como as organizações recebem os atletas, “nomeadamente os atletas do pelotão e sem dúvida, o apoio dados aos atletas quando algo não corre tão bem”.

A lebre e a víbora cornuda da Serra de Estrela

Histórias nas corridas não faltam a Marta. Para si, as histórias engraçadas são uma das melhores recordações das corridas. “As que recordo que mais me trazem de volta às gargalhadas, passaram-se nos treinos ou a acompanhar colegas em provas de ultra distância.

Num dos treinos em grupo, numa das encostas da Serra de Estrela, mais próxima da Covilhã, cruzámo-nos como uma víbora cornuda, uma cobra de espécie venenosa, numa subida. Nesse dia, afastámo-nos e seguimos o treino. Contei o sucedido à minha parceira de treino e amiga da corrida, Carla. Algumas semanas depois, fui com ela treinar para o mesmo percurso. Quando passámos por lá, eu disse-lhe ‘foi aqui que vi a víbora cornuda, mas hoje não está cá’. Rimos e o treino seguiu. Após a subida, entrámos num trilho a descer e como ambas gostamos muito de descer, íamos bem soltas e divertidas pelo trilho abaixo. Depois de uma curva apertada, eu ia na frente, deparo-me com uma lebre que vinha a subir num ritmo alucinante e com o susto gritei… um grito único e curto, mas enquanto a lebre se aproximava, eu dançava com ela e ela comigo, direita, esquerda, esquerda, direita… a minha amiga só se lembrou da víbora cornuda e gritava, gritava, gritava, porque pensava que mais uma víbora nos tinha aparecido no caminho. Quando eu disse que era só uma lebre que seguia a alta velocidade e nos desviámos para ela passar, abrandámos e desatámos a rir… uns metros e alguns segundos mais tarde, percebemos porque a pobre lebre fugia com aquela velocidade… vinha um cão a persegui-la, que com os nossos gritos se assustou e fugiu, deixando de perseguir a lebre. Salvámos a vida da lebre e fomos nós que não tivemos de enfrentar mais um cão”.

O Gang do pé descalço

Esta história também se passou na Serra de Estrela, na prova de 100 km do EstrelAçor. Um companheiro do clube participava na prova e pelas seis horas da manhã, noite serrada na Torre, Marta foi com mais dois colegas, esperá-lo na Torre, num dos abastecimentos onde os atletas podiam receber apoio, depois de cumprirem o famoso km vertical de Alvoco. “Estava vento, frio e tinha chovido. Foram chegando atletas, com impermeáveis vestidos, protegidos do frio… eis que no meio da noite serrada, vemos um atleta de manga curta e manguitos… Não podíamos acreditar, mas era o nosso colega, prestes a entrar em hipotermia. Depois de o metermos no carro e de se aquecer com ajuda do ar condicionado do carro e dos nossos casacos, depois de lhe darmos uma descompostura para se proteger do frio… percebemos que tinha os pés encharcados e não tinha nenhuma roupa suplente, nem sequer umas meias para trocar. Depois de tentarmos, em vão secar as meias no carro, a solução foi… regressarmos descalços à Covilhã depois de darmos as nossas meias ao nosso colega para que continuasse em prova com os pés secos e ainda levasse mais dois pares de meias suplentes”.

Visita à página de instagram de Marta

A terminar, Marta referiu o seu gosto pela escrita. “ Gosto de partilhar as provas em que participo, tentando descrever a prova, dificuldades, sentimentos e pensamentos que vou sentido ao longo dos quilómetros. Faço-o para minha memória futura, mas também como forma de divulgar a modalidade, de incentivar outras mulheres a virem experimentar a modalidade e promover a atividade física no feminino. Partilho os meus relatos da corrida na minha página de instragram runningwhiht_marta “.

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