Moniz Pereira: «Só serei derrotado com prolongamento e por penalties»

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1976

… afirmou em longa entrevista à Revista Atletismo, aos 70 anos de idade. “Eu motivo-me todos os dias às oito da manhã e continuo a ir diariamente para os treinos com o mesmo entusiasmo. Só há uma derrota que tenho como certa – a da morte», afirmou então, antecedendo a frase que escolhemos para título.

Faleceu no passado dia 31 de julho, aos 95 anos, o prof. Mário Moniz Pereira, um homem que marcou de forma marcante o atletismo nacional e ficou conhecido como “Senhor Atletismo”. Quando fez 70 anos e foi alvo de grande homenagem nacional, com a presença do então Presidente da República, Mário Soares, seu vizinho de infância, a Revista Atletismo (de maio de 1991) fez-lhe uma extensa entrevista (cinco páginas), na qual ele revelou muitas facetas curiosas da sua vida.

Na longa introdução que então escrevemos, resumimos algumas das suas principais características. “Mantém o mesmo dinamismo de sempre, a mesma boa disposição permanente, as mesmas ideias (por vezes polémicas).» (…) «É sempre uma referência. Pela dedicação sem limites, pelo exemplo. Concorde-se ou não com algumas das suas ideias, é difícil não se gostar do seu convívio. E é difícil não se admirar a pessoa.»

O início

Na entrevista, começou por recordar-se a sua juventude ligada ao desporto, por influência do pai e dos tios, que jogavam futebol e ténis, e de uns vizinhos. “Eles jogavam hóquei em campo no quintal deles, no meu fazia-se atletismo”, recordou Moniz Pereira na entrevista. “Fazíamos 30 metros com volta à nespereira (aquilo não dava para mais), salto em altura e com vara (com um pau de vassoura) na varanda, comprimento e duplo-salto (não havia espaço para o triplo) com corrida de balanço da varanda, depois descíamos uma rampa e íamos saltar ao quintal. Claro que os canteiros desapareceram todos num instante…» No andar de cima vivia um vizinho que viria a ser ilustre, Mário Soares. “Ele era apenas assistente. Tinha menos cinco anos que eu, ficava a ver. Não tinha idade para jogar!…”, recordava Moniz Pereira.

Atleta

Moniz Pereira viria a ser um desportista eclético (como eram todos os dessa época) mas o atletismo tinha a primazia, graças a um novo vizinho (aquando da mudança de casa para a Avenida da República), Salazar Carreira, antigo atleta, técnico, dirigente, jornalista (de tudo um pouco). “Ele emprestava-me livros, jornais, revistas, tínhamos um sistema de comunicação permanente entre as nossas janelas, com um vaivém e buzinas para quando era preciso chamar!”.

Moniz Pereira foi sócio do Sporting desde os 11 meses (quando faleceu era o nº 2) e foi naturalmente no clube que praticou atletismo, depois de uma breve experiência no Liceu Camões, que Moniz Pereira recordou assim na entrevista que estamos a seguir. “A minha primeira prova pelo Liceu Camões foi no antigo campo do Benfica, nas Amoreiras. Andei a chatear o reitor do Liceu para me inscrever e acabei por ser quinto, com 5,62, tinha eu 17 anos. Quando, depois, perguntou o resultado, o reitor desabafou para mim: ‘Deu-me tanto trabalho para fazer uma porcaria dessas!…’ Mas, hoje, tenho a satisfação de poder dizer que se fiz 5,62 com 17 anos, consegui fazer mais — 5,70 — nos veteranos, com 50 anos, recorde ibérico do escalão.”

Os recordes pessoais de Moniz Pereira chegaram aos 13,39 no triplo, a sua melhor especialidade (“o melhor que consegui foi um 3º lugar nuns Campeonatos de Portugal”, …, “eu era normalmente 3º/4º/5º), sendo mais fraco no comprimento (“enquanto no triplo entrava normalmente entre os seis melhores do ano, no comprimento era só 10º/12º”), prova na qual chegou a 6,485 (naquele tempo contavam-se os meio centímetros). Moniz Pereira definia-se assim como atleta: “tecnicamente era muito bom, mas lá está a velha questão. Não basta ter técnica. E eu não tinha velocidade nem força. Mas também não tinha pretensões, não era como são hoje muitos atletas e treinadores…”

Treinador

Como treinador, Moniz Pereira era considerado essencialmente um prático. Na entrevista, concordou e explicou. “Efetivamente, alguns colegas acusavam-me de ser um empírico, por oposição àquilo a que eu chamo os ‘cientistas’.” (…) “Eu não me considero um cientista, considero-me um treinador de atletismo. Eu, como treinador, apresento os dados aos homens da ciência para eles os estudarem. Mas não queiram ser eles os treinadores… O treino tem, como não podia deixar de ser, uma base científica, mas esta tem de ser completada com a experiência do treinador e com o seu sexto sentido.”

Dirigente

Moniz Pereira seria mais tarde (já depois desta entrevista), e ao longo de vários anos

(1995 a 2011), vice-presidente do Sporting, diretamente responsável pelo atletismo do clube. Conseguiu sempre avultados orçamentos para a modalidade, contratou boa parte dos melhores atletas nacionais e dominou por completo o panorama do atletismo nacional. Com a sua saída, a queda no orçamento (e a escassez de trabalho na formação…), o Sporting deixou de ter a primazia no setor masculino, embora o tenha mantido no feminino, no qual o Benfica não apostara então.

Deixou por completo a sua ligação ativa à modalidade em 2011, embora durante algum tempo mais – enquanto a saúde o permitiu – fosse espetador atento das provas nacionais.

«Os oito magníficos»

Moniz Pereira foi um grande fabricante de campeões. E, na entrevista à Revista Atletismo, em Maio de 1991, falou daqueles que considerava os “oito magníficos”, que conseguiram lugares de relevo em grandes competições internacionais: (por ordem cronológica) Álvaro Dias, Manuel Oliveira, Carlos Lopes, Aniceto Simões, José Carvalho, Fernando Mamede, Domingos Castro e Dionísio Castro. “Qual o melhor? O Carlos Lopes foi sem dúvida o melhor, o mais completo. O Fernando Mamede era o que tinha mais qualidades, poderia ter sido ainda muito melhor do que realmente foi”, afirmou Moniz Pereira. “Um misto Carlos Lopes-Fernando Mamede seria imbatível!”, acrescentou depois.

Moniz Pereira falou ainda de outro atleta que poderia ter tido grande categoria internacional – o barreirista olímpico Alberto Matos. “Às vezes tive que o ir buscar ao duche… Chegava a Alvalade e, em vez de ir treinar, limitava-se a tomar banho. Eu via que estava na hora, ia à procura dele e dava com ele já na cabina, a tomar duche…” E, mais adiante: “Já aconteceu haver atletas que diziam que não tinham horas disponíveis para treinar. Eu perguntava-lhes: ‘Às sete da manhã, podes? Eu vou lá’. Ficavam desarmados.”

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