Todos nós sabemos a importância da prática do exercício físico, seja qual for a idade. Ana Paula Pinheiro, médica de família na USF Viseu-Cidade e juíza de atletismo da Associação de Atletismo de Viseu (AAV), enviou-nos um artigo no âmbito dos benefícios da prática do atletismo para a saúde das crianças e jovens.
Dado o seu interesse, publicamos o texto de Ana Paula Pinheiro, agradecendo a sua colaboração.
Num contexto em que a inatividade física infantil é considerada um dos principais desafios de saúde pública do século XXI, promover a prática regular de desporto tornou-se uma necessidade social incontornável. Entre as diversas modalidades, o atletismo destaca-se não apenas pela sua acessibilidade e diversidade motora, mas também pelos comprovados benefícios científicos que oferece ao desenvolvimento integral de crianças e jovens.
Em primeiro lugar, a evidência científica é inequívoca quanto ao impacto da atividade física na saúde global. A prática regular contribui para o desenvolvimento saudável de ossos, músculos e articulações, melhora o funcionamento do sistema cardiovascular e auxilia na manutenção de um peso corporal adequado.(1) Além disso, estudos demonstram que níveis mais elevados de atividade física estão associados a melhor aptidão cardiorrespiratória e muscular, melhor controlo da pressão arterial e do metabolismo, bem como menor risco de depressão.(2)
Considerando que o atletismo combina corrida, saltos e lançamentos, atividades simultaneamente aeróbias e de impacto, esta modalidade reúne precisamente os estímulos recomendados para um desenvolvimento físico equilibrado.
Outro aspeto relevante prende-se com o impacto cognitivo e académico. A investigação demonstra que a atividade física melhora a atenção, a memória e o desempenho escolar.(3) Não se trata apenas de despender energia: o movimento estimula processos neurológicos que favorecem a aprendizagem e a consolidação do conhecimento. Um estudo empírico com estudantes concluiu ainda que o tempo diário de exercício influencia o rendimento académico, evidenciando que tanto a escassez quanto o excesso podem ser prejudiciais, o que reforça a importância de um equilíbrio adequado.(4,5) Nesse sentido, o atletismo apresenta a vantagem de poder ser ajustado à idade, condição física e necessidades individuais de cada criança.
No plano psicológico, os benefícios revelam-se igualmente significativos. Estudos indicam que níveis mais elevados de aptidão física em jovens estão associados a menores taxas de ansiedade, depressão e perturbações de défice de atenção.(6) A prática regular de atividade física contribui ainda para a redução de sintomas depressivos e para a melhoria do bem-estar emocional.(2) Para crianças e adolescentes, que atravessam fases de intensas transformações hormonais e sociais, esta função preventiva assume particular relevância.
Importa também considerar a dimensão social e formativa. O desporto promove competências como liderança, autoestima e capacidade de relacionamento interpessoal, além de estimular a motivação escolar e a definição de objetivos pessoais.(7) Embora muitas provas de atletismo sejam individuais, o contexto de treino é coletivo e fomenta o espírito de equipa, a cooperação e o respeito mútuo, contribuindo para a socialização e integração, fatores amplamente reconhecidos como determinantes para um desenvolvimento psicológico saudável.(1)
As recomendações internacionais indicam que crianças e adolescentes devem realizar pelo menos 60 minutos diários de atividade física moderada a vigorosa, sendo a maioria de natureza aeróbia e incluindo exercícios de fortalecimento muscular e ósseo pelo menos três vezes por semana.(8) Trata-se precisamente do tipo de estímulo que o atletismo proporciona, reforçando a ideia de que esta modalidade pode constituir uma base estruturante para a aquisição de hábitos de vida saudáveis.
Num mundo cada vez mais digital e sedentário, incentivar crianças e jovens a correr, saltar e lançar não significa apenas promover um desporto, significa investir em saúde preventiva, equilíbrio emocional e desenvolvimento social. O atletismo, pela sua simplicidade, versatilidade e riqueza motora, deveria ocupar um lugar central nas escolas e nas políticas públicas de promoção da saúde juvenil.
Referências bibliográficas
1. World Health Organization. Global Recommendations on Physical Activity for Health — 5–17 years (2021);
2. WHO/NCBI Evidence Summary on Physical Activity in Youth.
3. Centers for Disease Control and Prevention. Health Benefits of Physical Activity for Children (2025).
4. Li, N. (2023). Effects of Daily Exercise Time on Academic Performance of Students.
5. Benítez-Andrades et al. (2024). Feasibility of eHealth Intervention on Healthy Habits.
6. Huey-Ling Chiang; Yi-Fang Chuang; Yi-An Chen et al. Physical Fitness and Risk of Mental Disorders in Children and Adolescents. JAMA Pediatrics, Vol. 178, No. 6.
7. AIA Health Report. Sports activities for child development.
8. World Health Organization. Guidelines on Physical Activity and Sedentary Behaviour (2024).
9. Janssen & LeBlanc. Systematic review of the health benefits of physical activity and fitness in school-aged children and youth.
