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Home Running Atleta do Pelotão

Rafael Canaria/Um serrano que gosta de percursos com sobe e desce

Manuel Sequeira by Manuel Sequeira
2026-09-01
in Atleta do Pelotão, Destaque, Entrevista, Running
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Rafael Canaria/Um serrano que gosta de percursos com sobe e desce
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Rafael Canaria tem 25 anos e é atleta do Estrela Campo de Aviação Futebol Clube, clube da Covilhã. Tem obtidos resultados muito agradáveis com várias subidas ao pódio.

Rafael Canaria tem 25 anos e nasceu no Fundão. É pasteleiro e começou a correr há 13 anos. “O meu primeiro treinador falou comigo e com os meus pais, onde aproveitou para me convidar a ir fazer um treino sem compromisso, no inicio da época desportiva 2012/2013.”

Rafael representa atualmente o Estrela Campo de Aviação Futebol Clube, clube da Covilhã. Treina três vezes por semana, uma vez só e duas na presença do treinador Pedro Nogueira e restantes atletas. Quando a vida profissional lhe permite, complementa com mais dois treinos de reforço muscular, também sozinho.

Tem o seu plano de treinos semanal, adaptado consoante a época desportiva e as provas previstas. “Vamos estando sempre em contacto, de forma a gerir melhor os treinos com as participações nas provas propostas no início de cada época. E também, com os pequenos desafios que me vão sendo propostos durante cada época desportiva”.

Importante apoio dos pais para conseguir conciliar treinos e corridas com a atividade profissional

Não tem sido fácil a Rafael conciliar o atletismo com a sua atividade profissional. O apoio dos pais tem sido muito importante. “Ser pasteleiro ou trabalhador independente, só por si, já exige muito tempo de trabalho, principalmente nas alturas festivas. Mas, com o apoio dos meus pais que sempre estiveram lá desde o princípio, tenho conseguido conciliar o trabalho com os treinos e com as provas, mesmo que por vezes, isso implique regressar à pastelaria após o final da prova e seu convívio final”.

Estreia no Corta-Mato das Sete Fontes na Covilhã

Rafael estreou-se no mundo das corridas em 2013 no Corta-Mato das Sete Fontes na Covilhã. Já a nível oficial, na época de 2018/2019, no Campeonato Nacional de Estrada, com partida e meta no Estádio do Jamor. Foi uma experiência positiva conforme relata: “Apesar de a prova ter algum declive, pessoalmente para mim foi demasiado plana. Mas de forma geral, posso dizer que correu bem até porque não fazia a mínima ideia do que podia esperar ou fazer por ser a minha primeira vez numa prova a nível nacional e que desde então, faço questão de participar todos os anos”.

“Saiam de casa, corram, caminhem, vão nadar ou andar de bicicleta ou até mesmo correr atrás de uma bola”

Mais de 20 provas anuais

Rafael fez apenas quatro provas no seu primeiro ano de corridas. Mas a partir daí, ainda como estudante, passou a ir a todas ou quase todas as provas que se realizassem no distrito. Atualmente, serão mais de 20 anuais, a nível nacional e internacional até à vizinha Espanha.

Tem várias provas na sua lista de preferidas. As Meias Maratonas de Plasencia e de Alcains – Castelo Branco. Já na distância de 10 km, “é impossível não falar em duas das icónicas provas da Covilhã, a Corrida do 1º de Maio e a Corrida da Senhora da Conceição, que por sinal, é a padroeira da cidade”.

Refere também o Grande Prémio da Cortiçada em Proença a Nova, o Grande Prémio do Maranho na Sertã. Ainda, a Corrida dos Reis em Fátima ou a Corrida Mais Bonita de Portugal na Figueira da Foz. “São duas das provas que participei pela primeira vez nesta época mas que gostaria muito de as manter no meu calendário de provas”.

A terminar, não esquece a sua primeira prova: “Acho que qualquer atleta gosta de regressar sempre à que foi a sua primeira prova e como tal, seria injusto eu não a mencionar, o Corta-Mato das Sete Fontes na Covilhã. Apesar de esta já não se realizar há uns anos, mantenho sempre a esperança de que um dia voltará a ser feita, ate porque como referi anteriormente, as provas no distrito então a aumentar e quem sabe, não apareça alguém que a queira retomar”.

Já nas provas que menos gostou de participar, mostra-se compreensivo com algumas falhas das organizações. “Felizmente que não somos perfeitos e só assim é que se pode melhorar. Mas, se há prova que posso apontar como a que menos gostei de participar, foi a realizada em Castelo Branco no feriado do 10 de Junho em 2022. Já não me recordo o nome da prova por não ter feito intenção de lá voltar e também porque nunca mais foi feita. Tirando essa, há uma ou outra que também fui retirando do meu calendário por ver que com o passar dos anos, as melhorias eram poucas ou que, quanto mais queriam melhorar, acabavam por piorar as coisas para os participantes”.

“Só o facto de sairmos de casa para praticar uma atividade física, sem dúvida que já estamos a ‘ganhar’, a marcar pela diferença e a fazer algo de bom por nós mesmos”

Dos 10 km à meia maratona

A maioria das provas em que Rafael participa têm a distância de dez quilómetros. Mas sempre que é possível, procura as meias maratonas “para variar um pouco e porque sinto que me adapto bem nas distâncias maiores”. Quanto à maratona, “ainda não me aventuro a fazer os respeitosos 42 km. Talvez um dia lá chegue”.

Rafael acha que ainda tem muito tempo para amadurecer mais como atleta, uma vez que considera que essa distância deve ser muito respeitada. “A não ser que o clube ou o treinador me troquem as voltas e me desafiem a preparar uma maratona, mas terá de ser algo bem trabalhado e bem ponderado”.

Preferência pela estrada com muito desnível

Rafael já correu na estrada, montanha e corta-mato. A sua preferência vai para as provas de estrada com bastante desnível positivo e negativo. “Digamos que não só por influência da primeira prova que fiz como também pelo facto de que na Covilhã, ou subimos ou descemos, não fosse ela uma cidade que nasceu e se desenvolveu numa das vertentes da nossa bela Serra da Estrela”.

Ainda não se estreou no trail, referindo um problema no joelho que “me faz pensar muito, se arrisco ir ou me deixo ficar pela estrada”.

Tempo da pandemia, momento marcante da sua carreira desportiva

Rafael refere um dos momentos que mais o marcou de forma menos positiva. “Foi o tempo da pandemia em que tudo parou e o regresso às provas. Durante o tempo da pandemia, continuei a treinar para me manter ativo. Mas, o facto de estar apenas eu e o treinador na rua onde era habitual haver sempre gente, que eu com carinho apelidava de ‘obstáculos ambulantes’, foi algo que nunca pensei que pudesse acontecer, parecia que estava a correr numa cidade fantasma. Posteriormente, no regresso às provas, na primeira que fiz, senti algo muito estranho e não posso dizer que tenha gostado. Parecia que aquele tempo de paragem tinha levado algo de mim, parecia que já não sabia o que era uma prova, a competição, ou até mesmo, o correr com mais pessoas. Lembrei-me felizmente dos ensinamentos do meu treinador, que ainda era quem me tinha levado para o atletismo, o senhor Rui Infante, e que utilizei para me reintegrar nas provas. Fui fazendo cada prova por si e assim ganhando de novo, o contacto com tudo o que a pandemia nos tinha privado. Ainda foram surgindo algumas provas online, em que acho que consistia em fazer a distância da prova e enviar para a organização ou algo assim, mas não fui nessa porque para correr sozinho, já eu o estava a fazer com o treinador e não eram essas ditas corridas que iam mudar a realidade que vivíamos”.

“Se não estivesse no atletismo, muito dificilmente seria desportista”

Bom garfo à mesa e a precisar de mais descanso

Já na alimentação, não se considera um exemplo para os outros atletas. “Não me restrinjo a nada, desde que eu goste e queira, acabo por comer de tudo, por vezes até demais”.

Refere ainda alguma falta de descanso: “Podia hidratar-me mais e dormir mais horas, mas conciliar a vida pessoal com a vida profissional e ainda o desporto pelo meio, por vezes o descanso fica um pouco em falta.

Correr sempre

Perguntar a Rafael até quando pensa correr, “é como perguntar até quando pensa viver. Quando me colocam essa questão, eu respondo sempre que faço intenções de correr até que o corpo e a saúde me permitam. Já me cruzei e conferenciei com atletas com a sua belíssima idade que não faço ideia se lá chegarei. Mas sem dúvida, são eles que me inspiram a continuar a dar o meu melhor, o maior tempo possível”.

Raras lesões

As lesões não o têm visitado muito. Para além da que tem no joelho apanhada quando ainda era estudante (“também ela, um dos principais motivos atuais de continuar a praticar desporto até que o corpo me permita”), apenas teve uma feita numa prova, causada por um pé mal posto numa curva apertada a descer.

Não dispensa os exames médicos de rotina, importantes na prática da modalidade e na sua profissão. Faz ainda um check-up anual.

Atletismo, única modalidade a praticar

Rafael tem no atletismo a única modalidade desportiva que gostaria de praticar. “Se não estivesse no atletismo, muito dificilmente seria desportista. Quando era mais novo, os meus pais sempre quiseram que eu praticasse algum desporto e tentaram convencer-me muitas vezes, mas sem sucesso. Nunca gostei de futebol, desportos fechados num pavilhão também não eram para mim, apesar de que no meu inicio do atletismo, o clube que eu representava, também tinha basquetebol. Antes de começar os treinos e no final, lá ia eu brincar com a bola e fazer alguns cestos, só para matar o tempo”.

O ciclismo e a natação também não o seduziram. “Bicicleta, era só para passear ao fim de semana porque felizmente, ainda apanhei o tempo em que os pequenos brincavam na rua. Já a natação, mesmo tendo lá primos meus, também nunca quis porque eu era muito magrinho e toda a gente gozava”.

Nova geração de atletas promissora

Rafael considera que o atletismo português está novamente numa fase de evolução. Refere as novas gerações de atletas que estão hoje a surgir como a Mariana Machado, a Laura Taborda, o João Coelho, o Denis Hrabar e outros mais, “que trabalham muito mais do que eu, estão a abrir caminho para outra grande fase de qualidade nacional, talvez até melhor que no tempo dos grandes Carlos Lopes, Rosa Mota, Manuela Machado, Fernando Mamede e outros grandes nomes nacionais”.

Mas não gosta de comparar gerações: “Claro que fazer comparação entre as duas gerações, é errado até porque hoje em dia, temos outras condições que eles não tinham e ainda assim, fizeram história que nos marca até aos dias de hoje”.

Mostra-se critico com os prémios agora oferecidos nas provas. “Ouço muito falar nos tempos antes de eu nascer, em que davam prémios monetários, mesmo aos escalões de formação e os troféus eram bem melhores nesses escalões do que aqueles que recebemos hoje em dia nos escalões de competição, algo que já vi pessoalmente”.

“A competição saudável entre atletas, a adrenalina e o nervosismo antes das provas mais importantes, também faz parte claro, mas de que serve tudo isso se não aproveitarmos o momento da melhor forma possível ?”

Saber apreciar o que nos oferece o mundo das corridas

Rafael vê o mundo das corridas de forma abrangente. “O que mais aprecio nas corridas, é o facto de corrermos por vezes no meio da natureza, os momentos que vivemos, os amigos que fazemos, as brincadeiras que vamos tendo entre atletas… E claro, o facto de nos superarmos a nós mesmos em cada prova que fazemos, o chegarmos bem ao fim e darmos o nosso melhor. Isto é para mim, sem dúvida, o mais importante no meio desportivo. A competição saudável entre atletas, a adrenalina e o nervosismo antes das provas mais importantes, também faz parte claro, mas de que serve tudo isso se não aproveitarmos o momento da melhor forma possível ?”

Inquéritos aos atletas após as provas

Com o objetivo de melhorar o nível das provas, Rafael deixa o conselho às Organizações de fazerem pequenos inquéritos no final das mesmas, procurando junto dos atletas a sua opinião sobre elas ou o que acham que possa ser melhorado.

“Raramente as Organizações o fazem, mas nas pouquíssimas vezes que o fazem, eu noto que de um ano para o outro, há sempre melhorias. Por consequência, acabam por conseguir aumentar o número de inscrições, o que na minha opinião, acaba por ser benéfico para todos, desde a própria Organização como para os atletas em prova”.

“Na rua, podemos não aprender o mesmo que aprendemos com as tecnologias, mas aprendemos a cuidar de nós, da nossa saúde e a dar valor ao meio ambiente que nos é tão essencial”

Sem grandes objetivos a prazo

Rafael não é atleta de traçar grandes objetivos ou de os definir com muita antecedência. “Tenho uma certa seleção de provas que pretendo preparar melhor e pelo meio, de forma a me motivar a continuar a trabalhar, vou fazendo outras que para mim, não são assim tão importantes”.

Refere ainda o papel do seu treinador: “Para além disso, vou sendo desafiado pelo meu treinador para preparar uma ou outra prova específica e ver como corre”

Também por vezes, sabe de uma ou outra prova que lhe suscita curiosidade. Fala então com o treinador para ver se ele acha que vale a pena e se dá para conciliar com o restante calendário, para a preparar com o tempo devido”.

Estreia como infantil à chuva torrencial

Para quem corre há 13 anos, histórias não faltam a Rafael. A primeira de todas passou-se na sua estreia no mundo das corridas, em 23 de março de 2013. Era ele infantil quando correu o Corta-Mato das Sete Fontes na Covilhã. Normalmente, esta prova decorria com um clima adverso, chuva, neve ou muito frio. Mas naquele dia, o dia estava bom, apenas nublado.

Mas azar dos azares, dada a partida do seu escalão com apenas cinco rapazes e três raparigas, começou a chover torrencialmente.

“Escusado será preciso dizer que fui o último classificado até porque era a minha primeira prova, atrás de mim, só as três raparigas todas encharcadas devido à chuva. Mas lembro-me como se tivesse sido ontem, apesar de não estar à espera de ganhar algo, fiquei todo contente ao receber uma pequena medalhinha de participação e ainda uma medalha ao pescoço pelo quinto lugar. A partir daí começou a compor-se o meu espólio de recompensas pelo trabalho feito em cada treino”.

“Um dia mais tarde, quando olharmos para trás e virmos o percurso que fizemos, de certeza que vamos dar valor ao esforço que fizemos para não ficar ali fechados em casa”

Quando um troféu lhe caiu do colo ou quase discutiu com um polícia

Lembra-se ainda de outra quando no regresso a casa de uma prova, se deixou dormir no carro, com um troféu no colo. Quando acordou para sair do carro, o troféu caiu ao chão, porque não me lembrou que o tinha no colo.

Ou de quando quase discutiu com um policia que ia à frente da prova porque ele não acelerava a mota e Rafael estava quase a passar à frente dele”.

Saiam de casa e pratiquem desporto!

A terminar, Rafael quis deixar uma palavra a todos os praticantes de desporto. “Antes de querermos ganhar uma medalha ou uma prova, acho que devemos trabalhar para nunca nos esquecermos de onde viemos e aproveitar cada passo que damos como se fosse o último. Por vezes, custa sair de casa para ir treinar, seja porque está a chover ou porque está muito calor, ou até porque não nos apetece, ou o sofá seja melhor e não nos cansamos tanto. Mas um dia mais tarde, quando olharmos para trás e virmos o percurso que fizemos, de certeza que vamos dar valor ao esforço que fizemos para não ficar ali fechados em casa. Custa, dá trabalho, cansa e não é fácil manter a motivação, treino após treino. Mas só o facto de sairmos de casa para praticar uma atividade física, sem dúvida que já estamos a ‘ganhar’, a marcar pela diferença e a fazer algo de bom por nós mesmos”.

E conclui: “Saiam de casa, corram, caminhem, vão nadar ou andar de bicicleta ou até mesmo correr atrás de uma bola e quem sabe, por acidente partir um vidro ou outro (assumindo a responsabilidade pelo dano causado claro). Mas, não fiquem em casa a ver o tempo e a vida passar sem a aproveitarmos. Na rua, podemos não aprender o mesmo que aprendemos com as tecnologias, mas aprendemos a cuidar de nós, da nossa saúde e a dar valor ao meio ambiente que nos é tão essencial”.

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