Sem papas na língua: carta aberta da Maria Lasitskene às autoridades russas

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A tricampeã mundial do salto em altura, Maria Lasitskene criticou numa carta aberta enviada ao periódico digital Moscow Times o papel das autoridades russas face ao doping, o que levou à exclusão da Rússia das competições internacionais por um período de quatro anos.

Ao contrário do que fez Isinbayeva que acusou a Agência Mundial Antidopagem (AMA) de perseguir a Rússia, Lasitskene atribui as culpas do que se vem passando no país às suas autoridades desportivas.

Carta Aberta de Maria Lasitskene

Sou uma campeã do mundo russa e exijo respostas:

Fui privada do direito de competir com a bandeira russa em 2015 e parece que não poderei voltar a fazê-lo pelo menos até 2024. Não sou juiz assim como não procuro um veredito ou um castigo para quem são os responsáveis por isto. Só sou uma atleta mas tenho muitas perguntas.

– Que sucedeu realmente na Federação Russa de Atletismo (RAF) em 2015?

– Realizámos uma investigação interna? Quem foi castigado, aparte os atletas e os cinco ou seis dirigentes e treinadores que haviam sido suspensos pela IAAF?

– Estivemos simplesmente de acordo com as acusações e decidimos seguir em frente?

– E se as principais pessoas responsáveis do escândalo foram castigadas, porque é que apenas se mudou? Como é que os nossos atletas continuam usando sistematicamente substâncias proibidas, como é que os treinadores vinculados ao doping continuam a trabalhar com impunidade e como é que os nossos dirigentes desportivos continuam a falsificar documentos oficiais?

– Pode realmente ser que o nosso Ministro dos Desportos e o Comité Olímpico Nacional tenham estado satisfeitos com a RAF nos últimos quatro anos?

A carta da RAF estabelece que o objetivo principal da Federação é desenvolver, avançar e popularizar o atletismo na Rússia. Entretanto, a maioria das nossas federações regionais apenas chegam ao final do mês e competem em torneios nacionais com poucas esperanças de obter uma recompensa financeira.

– Estão conscientes de que os nossos resultados desportivos se deterioraram e que o atletismo como desporto está desaparecendo das nossas cidades e transmissões da televisão? Ou que apenas restam estádios de atletismo no país? Não é isto indicativo do trabalho que fizeram?

Ninguém falou em minha defesa quando o chefe da RAF, Dmitry Shlyakhtin, aludiu que eu podia perder o meu direito a competir como uma atleta neutra depois de criticá-lo. Acreditam que isto é normal? Não o creio. Mas nenhum dos nossos dirigentes parece ter problemas com o facto de esta pessoa – que é o Ministro dos Desportos da região de Samara – ter sido suspenso pela Unidade Antidopagem da IAAF e expulso da Federação, mas continuar a desempenhar um papel nos assuntos e a empurrar os seus compinchas para posições e liderança.

Não me surpreenderia se ele for a pessoa eleita pelo nosso Ministro dos Deportos para apelar ao TAS.

– Crê realmente que o atual Comité Executivo da RAF que consta apenas de dez pessoas, tem o direito de determinar o destino da federação para 2020? Algo melhorará se confiarmos nas mesmas pessoas?

Ademais, gostaria de saber: Que fez o meu ministério desportivo e o Comité Olímpico nos últimos quatro anos? Criaram tantas comissões mas nunca vi os resultados de nenhum dos seus trabalhos. De facto, já não tenho um estatuto neutral nem tenho a oportunidade de restaurá-lo.

– Deveria pessoalmente processar Shlyakhtin e a RAF, cujo “profissionalismo” nos levou à atual situação? Bem, irei investigar. Já perdi uma das Olimpíadas e um ano e meio de competições internacionais. E parece que isto não terminará tão cedo. Então, quem tem a culpa de tudo isto e quem me devolverá o que perdi?

– Como chegámos ao ponto de nos convertermos em atletas neutros? Sou uma atleta russa e deveria ter direito a competir no cenário internacional debaixo da bandeira russa e o hino russo. Não teria que levantar-me de manhã e perguntar-me se poderei competir ou não?

Muitas vezes, repreendem-me pela minha opinião crítica emocional e por não propor candidatos para substituir os nossos treinadores e dirigentes que foram suspensos. Surpreende-me sempre quando escuto isto. Não sou quem se supõe que deve oferecer soluções. O meu trabalho é saltar em altura e posso dizê-lo através dos meus resultados desportivos, o qual não creio que ninguém possa mandar-me à cara. Da mesma maneira, supõe-se que eles devem prestar contas do seu negócio. Depois de tudo isto, são as suas organizações as responsáveis dos desportos no nosso país.

Estou plenamente consciente de que é pouco provável que respondam às minhas perguntas. Alguns poderão dizer que não tenho uma imagem completa, enquanto outras poderão oferecer-me a sua simpatia.

Não necessito nada disso. Só quero ser honesta comigo mesma, os meus fans e outros atletas jovens. Quero receber o que é legitimamente meu: o direito a competir. Por isso, estou lutando!

 

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