Três horas por dia de ‘poltrona e TV’ danificam a capacidade intelectual

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Estudo associa consumo de televisão e pouca atividade física a deterioração cognitiva

Comemora-se hoje o Dia Mundial da televisão, data foi proclamada pelas Nações Unidas em dezembro de 1996, após o primeiro Fórum Mundial de Televisão, a 21 de novembro de 1996.

Até hoje, a vida sedentária associada ao consumo de muitas horas de televisão estava relacionada com problemas de saúde com a mesma gravidade que a dependência do cigarro.   Mas pode acontecer que o abuso da poltrona não estar a danificar apenas os nossos corações, mas também a nossa massa cinzenta, segundo um estudo que acaba de dar um passo importante no sentido de relacionar esses maus hábitos à perda de capacidade intelectual.

Neste sentido, convém não se esquecer que os portugueses passam em média umas boas horas por dia diante do televisor.

Os investigadores, pertencentes a diversas universidades e instituições norte-americanas, acompanharam a evolução de mais de 3.200 adultos durante 25 anos (entre 1985 e 2011) para ver como eles eram afetados pelo elevado consumo da televisão e a ausência de atividades físicas. “Níveis reduzidos de atividade física e níveis elevados de consumo de televisão durante a juventude e a idade adulta, estão associados a um pior rendimento cognitivo quando se atinge e meia-idade”, concluíram os autores do estudo.

televisão1Especificamente, esses comportamentos estão associados ao facto de se ter uma velocidade menor de processamento de informações e uma pior capacidade cognitiva, como, por exemplo, a de memorizar um número de telefone ou seguir o fio de uma conversa sem se dispersar. Comparados com outras pessoas ativas e que viam pouca televisão, os mais sedentários demonstravam até o dobro de possibilidade de atingir resultados fracos em diferentes testes para medir o estado do cérebro.

Embora a soma desses dois fatores determinasse os piores resultados intelectuais ao final de um quarto de século, os resultados são inferiores naquelas pessoas que passavam mais tempo diante da TV do que naquelas que faziam pouco exercício físico. Os resultados, publicados na revista JAMA Psychiatry, consideram que um consumo de televisão acima de três horas diárias significa um risco para a saúde intelectual.

“É um dos primeiros estudos que demonstram que esse tipo de comportamento de risco pode ser um alvo fundamental para prevenir o envelhecimento cognitivo, antes mesmo de se atingir a meia-idade”, garantiram os investigadores.

Como uma explicação possível, eles sugerem que a atividade física durante a idade adulta pode preservar a capacidade intelectual e contribuir para a produção de neurónios e para o bom estado de suas conexões, particularmente em regiões do cérebro associadas à função executiva e à velocidade de processamento dos pensamentos.

Evitar esse tipo de comportamento é fundamental para evitar o envelhecimento cognitivo

Televisão“Estudos fisiológicos indicam que comportamentos sedentários, como ver televisão, afetam negativamente a função metabólica por meio de um aumento da pressão arterial, assim como dos níveis de lipídios e glicose.

Ver televisão, pode estar associado também a diferentes padrões cognitivos e sociais, depressão e padrões dietéticos pobres”, propõem os autores da investigação como uma explicação possível para o fenómeno.

O estudo possui uma nuance, que consiste em afirmar, cautelosamente, que “correlação não significa causalidade”, pois trata-se de duas situações que podem significar uma via de mão-dupla, como admitem os seus próprios autores: as pessoas sedentárias apresentam resultados intelectuais piores e vice-versa, como se constatou em outros estudos, de onde se conclui que os dois fatores poderiam, na verdade, se retroalimentar.

Os autores garantem que, dada a pouca idade dos participantes da investigação e o facto de eles terem permanecido no projeto durante 25 anos, indica que “seja pouco provável que tenham registrado déficits cognitivos significativos”.

Nesse sentido, Juan Ramón Barrada, professor da Universidade de Zaragoza, na Espanha, vê o trabalho de forma crítica: “É um bom estudo, mas ele não garante que os problemas não estejam presentes desde a origem. Não sabemos se quem tinha um nível inferior de atividade física já não apresentava uma capacidade cognitiva menor aos 25 anos (média de idade por ocasião da primeira coleta de dados). Talvez essas pessoas já fossem diferentes nessa idade”, raciocina Barrada, que não participou no estudo e é especialista em medição e avaliação psicológicas.

 

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