António Santos/A correr na estrada e na justiça

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António Santos tem 59 anos e é advogado. Corre há 17 anos, agora pela Associação Vale Grande e a sua distância preferida é a maratona. Estreou-se numa das Mini Maratonas da Ponte 25 de Abril e já correu umas largas centenas de provas. No mundo das corridas, valoriza particularmente a camaradagem e os amigos que criou.

António Santos nasceu em Cadafais, concelho de Alenquer, já lá vão 59 anos. Iniciou-se nas corridas populares há 17 anos mas a prática desportiva já vem de longe. O futebol era o seu desporto preferido mas quando verificou que era propício a muitas lesões, optou pelo atletismo. Durante muitos anos, apenas treinava, pelo prazer de correr até que surgiu a sua primeira corrida oficial.

Em criança, participou em muitas corridas nas festas da aldeia. Mas para si, a sua primeira corrida “oficial” foi a Mini Maratona da Ponte 25 de Abril. “Confesso que fiquei perplexo e disse para mim mesmo ‘que tens andado a fazer para ainda não teres descoberto isto?’A partir daí, fui participando em corridas com muita regularidade”.

Correr aos domingos da estrada para o escritório

António Santos é advogado e não lhe tem sido fácil conciliar a sua atividade profissional com os treinos e as corridas. “Obriga-me a treinar, por regra, fora das horas normais de expediente. Como tenho profissão liberal e para compensar a falta de tempo, sou obrigado a trabalhar durante a noite e aos fins de semana. Não são raras as vezes que após participar numa qualquer corrida de domingo, vou trabalhar para o escritório”.

Corre agora pela Associação Vale Grande e ainda faz uma ou outra corrida pelo Grupo Desportivo do INE. Treina em média seis vezes por semana, habitualmente acompanhado, e descansando ao sábado. Não tem treinador e quanto a plano de treinos, deu-nos uma resposta curiosa: “Em regra, traço um plano mental de treinos que tento seguir – sem muito rigor – tendo em vista os próximos objetivos”.

Preferência pelas provas fora dos grandes centros urbanos

Já correu 40/50 corridas por ano, tendo ultimamente reduzido para 25/28. Não escolhe uma prova em particular como a sua preferida, nas muitas centenas em que já participou. “Será um lugar comum dizer que gosto de participar em todas. Mas em regra, aprecio mais as que são afastadas dos grandes centros urbanos onde a confusão é menor, os prémios são mais atrativos e em regra, somos tratados com mais atenção”.

António Santos 4Também não refere uma que tenha sido menos do seu agrado porque… gostou de todas! “Claro que nem todas correram bem ou porque eramos nós que não estávamos bem – e atribuímos a culpa à corrida – ou porque houve uma ou outra falha na organização. Mas não vou particularizar. Gostei de todas! “

A sua distância preferida são os míticos 42.195 metros da maratona. Já correu oito, tendo feito a estreia na primeira edição da “Ecomaratona” do Algarve, em Faro. “Não correu muito bem, sofri muito! Mas no fim, fiquei feliz!”

“Tenho que mentalizar-me de que é preciso ir diminuído gradualmente o ritmo e a carga de treinos”

Momentos mais marcantes assinalados pelo convívio

António Santos afirma-se competitivo. “Tento dar sempre o máximo que posso e numa vez ou outra, até vou ao pódio no escalão e levo uma lembrança para casa. Os momentos mais marcantes foram aqueles em que se proporcionou um salutar convívio com amigos e com pessoas que vamos conhecendo”.

Diferenças entre a estrada e o trail

Embora António Santos participe mais em provas de estrada, já participou nalguns trails. Para si, as principais diferenças, para além das óbvias, “são as de permitir, para além da atividade física, a promoção do espírito de camaradagem e entreajuda, que nas corridas de estrada não acontece tanto. Para além disso, permite-nos um contato mais próximo com a natureza e isso sensibiliza-nos para a necessidade de a protegermos cada vez mais”.

“O grande, grande objetivo é mesmo o do conseguir passar a correr com o relógio no bolso!”

Saber diminuir o ritmo e a carga de treinos

Costuma fazer anualmente os exames médicos de rotina e tem os devidos cuidados com a alimentação, sem entrar em exageros. “Em regra, uso e abuso dos legumes e frutas – grande parte colhidos da minha horta – evito o consumo de carnes, sobretudo, vermelhas; alimentos fritos e tento ter cuidado com os doces”.

Já quanto a lesões, estas têm-no visitado nos últimos cinco anos. O mal está identificado e tem a ver com a ciática e isquiotibiais que lhe afetam a perna direita em particular. “Tento ‘gerir’ o melhor que posso com tratamentos de fisioterapia, massagem e alongamentos. Mas a verdade, é que em certas épocas do ano, em especial no inverno, a dor torna-se limitativa de poder treinar nas devidas condições. Nessas fases limito-me a fazer o que posso!”

Maratona Lisboa 2017 015Pensa correr enquanto as pernas não o “traírem”, logo por muitos anos. “Para isso, tenho que mentalizar-me de que é preciso ir diminuído gradualmente o ritmo e a carga de treinos, porque só assim o conseguirei!” Eis um conselho a seguir por muitos veteranos que continuam a treinar e a correr o mesmo número de provas como o faziam há 20/30 anos.

Como atleta de pelotão, o que mais aprecia no mundo das corridas é a camaradagem e o número de amigos que vai conhecendo ao longo dos anos, bem como os momentos “ anti stress “ que isso proporciona.

 “Em regra, traço um plano mental de treinos que tento seguir – sem muito rigor – tendo em vista os próximos objetivos”

Correr com o relógio no bolso!

À beira dos 60 anos, António Santos não tem grandes objetivos em mente no que aos resultados diz respeito. Para si, “tudo se resume a tentar treinar sem leões, a participar em duas ou três corridas por mês e talvez ainda nalguma maratona. Mas o grande, grande objetivo é mesmo o do conseguir passar a correr com o relógio no bolso!”

Como amante da natureza, diz-nos que teria optado pelo BTT se não tivesse escolhido o atletismo.

Aspetos a melhorar nas corridas na área da Grande Lisboa

Na sua opinião, as organizações das provas veem funcionando razoavelmente bem. Mas encontra diferenças entre as disputadas fora da Grande Lisboa e dentro da cidade.”Fora da Grande Lisboa, as corridas são mais bem preparadas, organizadas e os atletas, mesmo os do pelotão, são tratados com mais atenção. Na Grande Lisboa, há alguns aspetos a melhorar: deviam-se criar caixas de partida para que cada um se pudesse posicionar de acordo com as suas aptidões; instituir prémios/lembranças para os melhores classificados em todos os escalões masculinos e femininos; maior rapidez na entrega dos prémios e levantamento de dorsais em locais mais acessíveis a todos.

Otimista quanto ao futuro da modalidade

Na sua opinião, há uma crise evidente no atletismo europeu, em particular no meio fundo e fundo, a que Portugal não é alheio. “Naturalmente que como país mais pequeno que somos e com pouco investimento a nível do desporto escolar, essa crise poderá ser um pouco mais acentuada.

No entanto, António Santos acredita que este ciclo menos bom, em especial no setor masculino, irá ser ultrapassado com o surgimento de novos valores e que num futuro breve,  o panorama possa melhorar e voltemos a ter atletas que nos possam  dar algumas alegrias a nível internacional.

“Aprecio mais as corridas que são afastadas dos grandes centros urbanos onde a confusão é menor, os prémios são mais atrativos e em regra, somos tratados com mais atenção”

Sem dormida à meia-noite nas vésperas da maratona de Fankfurt  

António Santos 3Estórias também não faltam ao nosso entrevistado. Conta-nos uma passada com mais cinco amigos antes da maratona de Frankfurt. “É uma história de uma ida com mais cinco amigos, à maratona de Frankfurt, onde tudo começou mal e acabou bem. Fomos todos para a Alemanha com reserva para o mesmo hotel e chegados ao dito cujo, já próximo da meia-noite, com o corpo a pedir descanso pelo dia de trabalho e pela viagem, fomos, friamente, informados de que as nossas estadias haviam sido todas canceladas por, alegadamente, ter expirado o prazo do cartão de crédito. Após deambularmos pela cidade aquela hora, com um frio gelado e após alguns contatos com amigos, fomos todos parar a um hostel como o único recurso para aquela noite. Acabámos por ficar os seis no mesmo quarto, não só naquela noite mas durante toda a estadia – de mais 3 noites- num convívio e paródia, que dificilmente iremos esquecer. Falta dizer que o hostel ficava na zona do ‘bas fond’ da cidade e que fizemos todos uma excelente maratona apesar do frio a rondar os zero graus! “

Falta a promoção da prática do exercício físico

A terminar, António Santos quis deixar-nos uma pequena reflexão, dirigida a todas as pessoas que têm poder de decisão politica e não só. “Que façam muito mais para apoiarem a prática do desporto popular e também do profissional. Incentivem todas as pessoas a praticarem desporto com regularidade, concedendo, porque não, benefícios no IRS; taxas moderadoras; idade da reforma etc. etc. Num país onde a obesidade e o sedentarismo, têm taxas que a todos nos envergonham, será um dever de todos, mas sobretudo dos responsáveis políticos, fazerem muito mais para inverter esta situação”.

A completar o seu raciocínio, António Santos pergunta se alguém já fez algum estudo sobre qual seria o reflexo no orçamento da saúde em Portugal se a prática de uma atividade desportiva regular aumentasse, pelo menos, para o dobro das pessoas. “Não haveria hospitais que teriam de encerrar? Que reflexos teria isso na qualidade de vida da população em geral? E na produtividade, o ‘calcanhar de Aquiles’ da nossa economia?”

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