Livro explosivo de ex-responsável russo pelo doping: sprinter Ben Johnson foi protegido pelos russos?

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Num livro que será posto à venda no próximo dia 30, Grigory Rodchenkov, antigo responsável do laboratório da Agência Mundial Antidoping (AMA) em Moscovo e refugiado desde 2015 nos Estados Unidos, faz novas revelações sobre o doping em grande escala na União Soviética e depois na Rússia. Ele refere entre outros temas, o boicote dos Jogos Olímpicos de 1984 e o assunto Ben Johnson.

Segundo as revelações devastadoras de Rodchenkov, cujos principais extratos foram publicados ontem pelo jornal inglês “The Mail on Sunday”, a União Soviética boicotou os Jogos Olímpicos de 1984 em Los Angeles por medo de um escândalo internacional ligado ao doping organizado. “Eu defraudei conscientemente as autoridades antidoping mundiais durante mais de dez anos, ao mesmo tempo, pela grande glória dos atletas russos e também para satisfazer os burocratas do desporto, determinados a perpetuar o sucesso desportivo da Rússia”, escreveu ele.

Rochenkov sustenta que o doping soviético, depois russo (principalmente com os marchadores russos “alimentados” à força de EPO), era “incontrolável”, citando o exemplo dos Campeonatos Mundiais de 1983 em Helsínquia, onde “em certos locais de treino, encontrar urina limpa era um problema porque eram tantos os atletas que estavam sujos”.

Para além das considerações políticas, foi a impossibilidade de trazer um navio com um laboratório secreto a Los Angeles durante os Jogos, que conduziu ao boicote de 1984. “Os soviéticos tinham previsto esconder um laboratório de controlo do doping a bordo de um navio no porto de Los Angeles durante os Jogos Olímpicos de 1984, depois de Manfred Donike (responsável antidoping do COI) e Don Catlin, do laboratório de análise olímpica da UCLA, terem anunciado que eles seriam capazes de detetar todos os produtos – incluindo stanozolol e testosterona – nos Jogos de Los Angeles”, escreveu Rochenkov.

“Testar os atletas antes da sua partida não seria suficiente – os czares do desporto soviético deviam ter o seu próprio laboratório no local a fim de assegurar que nenhum atleta soviético sujo não iria para as linhas de partida. Quando Los Angeles não permitiu o nosso navio de entrar no porto, isso foi a gota de água. O Politburo desconetou tudo e boicotou completamente os Jogos Olímpicos”. Em 1988, o navio-laboratório pôde entrar nas águas coreanas…

“Ben Johnson bateu Carl Lewis mas testou a seguir positivo a stanozolol. Fiz a sua análise. O resultado nunca foi relatado”

Rodchenkov afirma ainda que Ben Johnson, privado do seu título de campeão olímpico nos 100 m dos JO de Seoul 1988, já tinha testado secretamente positivo em esteroides dois anos antes.

Então responsável do laboratório moscovita, Rodchenkov revela que ele analisou pessoalmente as análises de doping nos Jogos da Boa Vontade de 1986 em Moscovo, e encontrou um esteróide proibido, o stanozolol (o mesmo encontrado em Seoul) na urina de Ben Johnson. “A análise de controlo de doping nos Jogos da Boa Vontade acabou sendo uma formalidade”, escreveu ele. “O nosso laboratório descobriu 14 resultados positivos mas os apparatchiks de Goskomsport (Ministério Soviético dos Desportos) escolheram não os relatar. Ben Johnson bateu Carl Lewis mas de seguida testou positivo a stanozolol. Eu fiz a sua análise. O resultado nunca foi divulgado”.

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