Nike promete não voltar a descriminar atletas grávidas

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Em Maio último, Allyson Felix, de 33 anos, juntou-se às denúncias de discriminação de outras colegas e num texto publicado no The New York Times, denunciou que a Nike lhe tinha oferecido um novo contrato inferior (menos 70% do que o anterior, que terminou no final de 2017) após decidir ser mãe em 2018. Pediu garantias de que não seria penalizada se rendesse abaixo do seu nível nos meses anteriores e posteriores ao parto. A resposta foi negativa.

No final de Julho, após voltar a competir pela primeira vez em 13 meses, Felix encerrou as negociações com a Nike para um novo contrato e assinou com a Athleta, uma marca de roupa desportiva que nunca havia patrocinado atletas. Meses depois da denúncia pública, Felix venceu a batalha. Na sexta-feira passada, ela publicou no Instagram uma carta enviada pelo vice-presidente de marketing global da marca para anunciar uma nova política contratual não discriminatória.

“As nossas vozes são poderosas”, foi o título da publicação de Felix. A Nike comprometeu-se, de acordo com o e-mail datado de 12 de Agosto, a proteger e a não discriminar as atletas que decidirem ser mães. “Se a atleta ficar grávida, a Nike não pode aplicar nenhuma redução relacionada ao rendimento (se for o caso) por um período consecutivo de um ano e meio, começando oito meses antes da data do parto. Durante esse período, a Nike não pode rescindir nenhum contrato se a atleta não competir pela gravidez”, diz o e-mail assinado por John Slusher.

“A Nike uniu-se oficial e contratualmente para dar proteção às atletas mulheres que patrocina e que já não serão penalizadas economicamente por ter um filho. Agradeço a John Slusher e Mark Parker pela sua liderança e pelo seu desejo de guiar a Nike como empresa que acha que somos mais do que atletas. Obrigado às marcas que já se comprometeram. Quem é o próximo?”, escreveu Felix.

A nove vezes medalhada olímpica (seis ouros e três pratas; além de outras 16 medalhas em Mundiais) não se calou na hora de denunciar a discriminação da qual foi vítima. “Nós atletas, temos muito medo de dizer publicamente que se tivermos filhos, corremos o risco de que os nossos patrocinadores cortem o salário durante a nossa gravidez e depois. É um claro exemplo de uma indústria desportiva onde as regras são feitas maioritariamente por homens”, escreveu então no texto do The New York Times.

“Se eu, uma das atletas mais comercializadas da Nike, não consigo essas proteções, quem pode?”, concluiu Felix.

Alysia Montaño, também atleta olímpica, denunciou que o seu desejo de ser mãe a deixou com uma considerável redução de salário e sem permissão de maternidade. Além de Montaño, deram o seu depoimento, a também corredora olímpica Kara Goucher e mais uma dúzia de atletas, agentes e pessoas ligadas à multinacional de roupa desportiva.

O caso de Blanca Manchón

O caso chegou ao Congresso dos Estados Unidos, onde dois deputados pediram ao diretor executivo da Nike, Mark Parker, que esclarecesse a postura discriminatória da empresa. Diante das queixas, a Nike afirmou em Maio que colocaria em andamento uma nova política que estabeleceria salários padrão às atletas durante as suas gravidezes e reconheceu que a empresa pode “ir além”. Meses depois formalizou o seu compromisso.

Na Espanha, Blanca Manchón – atleta olímpica da vela, já classificada para os Jogos Olímpicos de Tóquio em 2020 – também denunciou que os seus patrocinadores desapareceram quando lhes comunicou a gravidez. Precisou de pedir dinheiro aos seus pais para poder competir e lutar para se classificar para os Jogos Olímpicos após ter um filho. “A Nike e a Emasesa, com as quais tinha contrato há anos, parabenizaram-me quando lhes contei que estava grávida. “Supermãe, disseram-se!”. Mas depois, quando chegou o momento de me darem o dinheiro, o montante não era o suficiente. E quando foi preciso renovar o contrato, ou não atendiam o telefone ou davam desculpas”, contou ao El País.

“No meu desporto, é preciso planear as coisas com muita antecedência pelas viagens e a logística. Estava com a barriga de nove meses e planeando a próxima época e ninguém atendia as minhas chamadas. A minha gravidez definiu-se como incerteza profissional… Nunca mais tive notícias da Emasesa, e a Nike disse-me que não sabiam como encaixar o meu desporto na sua marca, que haviam tentado, que sentiam muito, mas nada”, relatou. Perdeu 40.000 euros. “Não tinha nada… porque um ano em que não se compete, é um ano sem salário e eu contava com o dinheiro dos patrocinadores para o meu próximo ciclo olímpico. Foi muito, muito difícil”.

 

 

 

 

 

 

 

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