Quem é o japonês vencedor da Maratona de Tóquio?

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Yuki Kawauchi é um atleta amador. Tem o seu emprego e treina nas horas vagas, muito menos que um atleta profissional. Chega a fazer 13 maratonas por ano!

Yuki Kawauchi espantou o mundo na última segunda-feira ao vencer a maratona de Boston. O japonês é inspetor de um colégio em Saitama e treina apenas nas horas vagas. Aos 31 anos, é um atleta amador, não recebe patrocínios, não vive da corrida e a sua carga de treinos é muito inferior à de um atleta profissional.

Apesar de ter no seu currículo o tempo de 2h08m37s na Maratona de Tóquio, em 2011, é habitual vê-lo correr as provas vestido de panda. O seu triunfo na segunda-feira quebrou a hegemonia dos quenianos e etíopes e pôs toda a gente a perguntar: quem é Kawauchi e como conseguiu ele tal feito?

O japonês está no atletismo desde os seis anos, incentivado pelos pais. Teve técnicos na escola e na faculdade. Mas, aos 23 anos, quando se formou em administração e passou a trabalhar, começou a treinar sozinho. Durante a semana, treina pela manhã durante 90 ou 120 minutos e trabalha das 12h45 às 21h15. O seu plano de treinos, inclusive, é vista com espanto por atletas profissionais. Faz muitos quilómetros se olharmos para a quilometragem mensal de um amador, mas fica muito abaixo dos profissionais. Atualmente, ele faz cerca de 700 km por mês. São quatro treinos de corrida e um intervalado de velocidade, além de trabalhos mais longos nos fins de semana, de cerca de 150 km subindo e descendo trilhos.

japonêsO triunfo em Boston, porém, não foi o primeiro de Yuki em provas internacionais. Em Setembro do ano passado, ele venceu a Maratona de Oslo, na Noruega, fazendo 2h15m57s. Naquela prova, chegou ao número de 70 maratonas correndo abaixo de 2h20m.

Apesar de amador, Kawauchi é competitivo, mas vencer a Maratona de Boston batendo o atual campeão, o queniano Geoffrey Kirui, era algo inimaginável para um amador e subverte a lógica. Ele foi ajudado também pela humidade do ar, que se aproximou dos 100%, e pela lentidão da prova. O seu tempo foi de 2h15m58s, o pior desde 1976.

Não baixa o ritmo de treinos após uma maratona

Enquanto os profissionais correm no máximo cerca de três maratonas por ano, ele terminou 2014 e 2015 com 26. Em 2016, correu outras nove. No ano passado foram 12, com cinco vitórias. Após uma maratona, deve-se reduzir as cargas de treino, o que Kawauchi não faz. Prefere a acupuntura e as águas termais e mantém o seu ritmo de treinos semanais com uma velocidade média de 12km/h, confortável para atletas amadores e muito abaixo do ritmo seguido em Boston, quando terminou o primeiro quilómetro em 2m46s. Para ele, treinar menos que os profissionais, mantém-no livre de lesões.

“Após uma corrida ou um treino puxado, faço um tratamento em águas termais e recorro às agulhas, tentando livrar –me da fadiga. Se eu sentir muita dor, ajusto o meu treino para não ficar lesionado por um longo período”

Recusa de convites para ser profissional

Kawauchi é um atleta amador por opção. Quando conseguiu o seu melhor tempo na Maratona de Tóquio, em 2011, recebeu inúmeras propostas para se tornar profissional. Empresas japonesas ofereceram patrocínios que lhe garantiriam uma carreira na modalidade sem maiores preocupações. Ele, porém, não quis abrir mão do seu emprego. E no Japão, os funcionários públicos não podem ter uma segunda ocupação.

-“Eu gostaria que corredores que precisam realmente de apoio financeiro recebessem esse tipo de ajuda. Eu não tenho esse problema. Seria mais interessante se eles recebessem esse suporte” – disse o japonês.

Hoje, Kawauchi segue a sua rotina amadora. Viaja sem técnicos e financia as suas participações internacionais com convites dos organizadores. Faz ginástica em casa, com aparelhos que ele mesmo adquiriu numa loja acessível a qualquer pessoa. Um amigo, um canadiano radicado no Japão, ajuda-o nos contatos com as provas. Os seus custos também são mínimos. Investe anualmente apenas 1.300 dólares (1.050 euros) com sapatos de corrida e fisioterapia. Com 31 anos, ele não pensa em retirar-se e quer correr por pelo menos mais cinco anos.

 

 

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