A louca maratona olímpica de St. Louis em 1904

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A Maratona em St. Louis nos Estados Unidos teve tudo para ficar na história como a mais desastrosa: atleta apanhando uma boleia, outro tomando veneno de rato e conhaque durante a prova, um tirando uma soneca depois de comer uma maçã podre e houve também quem corresse a mais para fugir de cães raivosos.

Vários atletas têm sido descobertos a cortarem caminho ou a burlarem o regulamento para conseguir vencer a prova. Mas engana-se quem pensa que este tipo de comportamentos é apenas recente Basta relembrarmos a Maratona Olímpica de 1904, na cidade americana de St. Louis. Provavelmente a mais bizarra que tivemos.
Depois do sucesso dos primeiros Jogos Olímpicos da modernidade, em Atenas em 1896, os dois seguintes não tiveram o mesmo êxito. Na tentativa de fazer um evento mais global, que envolvesse para além do desporto, os Olímpicos de Paris em 1900 foram anexados a uma grande Feira Cultural. Ao tentar abraçar o mundo com as pernas, perdeu-se em qualidade nos eventos desportivos. Lá, as instalações eram pobres – não havia nenhuma pista plana para os velocistas, por exemplo. Além disso, a maratona teve um percurso estranho e complicado, e o vencedor, um parisiense, foi acusado de atalhar, embora tal nunca fosse comprovado.
Em 1904, Chicago tinha sido a cidade escolhida para receber os Jogos, mas como havia uma feira em Saint Louis, a pressão sobre o Comité Olímpico para que se transferisse e se unisse à feira foi tão intensa que o Barão de Coubertin, principal membro da época no COI, teve que ceder, sob ameaça de sabotarem o evento desportivo. Seria o primeiro evento dessa natureza a acontecer fora do continente europeu, o que também trouxe problemas.
Numa época de amadorismo, sem patrocinadores e com boa parte dos atletas a trabalhar e treinar, um evento noutro continente era demasiadamente longo e caro. Poucas delegações apareceram, com número escasso de atletas que, se não tivessem, por acaso, levados todos os documentos necessários, eram considerados como imigrantes e inscritos como parte da delegação americana. Não é de surpreender que a equipa americana tenho ganho 238 medalhas – mais 223 do que os segundos classificados, os alemães.
Embora houvesse momentos de triunfo surpreendente e genuíno (como o ginasta alemão George Eyser, mas que competiu pelos EUA e que ganhou seis medalhas, incluindo três de ouro, apesar da sua perna de pau!), os jogos foram em grande parte ofuscados pela feira, que ofereceu a sua própria lista de eventos desportivos, incluindo os controversos Dias Antropológicos, onde homens de aldeias africanas, asiáticas e da Oceânia, competiram numa série de atividades degradantes.

Poucos maratonistas

 Contudo, a maratona, que foi inventada nos jogos de 1896 para honrar a herança clássica da Grécia e ressaltar a ligação entre o antigo e o moderno, permanecia na agenda oficial. Foram inscritos 40 atletas, embora só partissem 32 no dia 30 de agosto de 1904. Entre os que se apresentaram para a partida, havia uma minoria de reconhecidos maratonistas que tinham conquistado ou ficado bem colocados na Maratona de Boston, a principal fora do circuito olímpico, ou tinham participado em maratonas olímpicas anteriores.
No entanto, a maioria dos atletas na linha de partida era composta por corredores de meio fundo e inúmeros excêntricos. Entre eles, dez gregos que nunca tinha corrido uma maratona e que se inscreveram no dia anterior à prova, dois homens da tribo Tsuana da África do Sul, que estavam em St. Louis como parte de exposição da feira “cultural” e chegaram na linha de partida com os pés descalços, e o cubano Félix Carvajal, carteiro, que conseguiu levantar dinheiro para ir para os Estados Unidos.
Mas Carvajal, numa das paragens da viagem, perdeu todo o seu dinheiro a jogar dados e teve que caminhar e pedir boleia para chegar a St. Louis, pouco antes da partida, sem ter feito uma refeição durante dois dias. Iria partir com a única roupa que tinha, uma camisa branca de mangas compridas, calças escuras, longas, uma boina e um par de sapatos de rua. Todavia, um companheiro olímpico teve pena, encontrou uma tesoura e cortou as calças de Carvajal pelo joelho.
Estava armado o circo para aquela que se tornaria a verdadeira “Louca Corrida”.

40 e não 42 km
maratona-s-louis-1Em 30 de agosto, precisamente às 15h03, foi dado o tiro de partida, e os homens saíram enfrentando 32 graus à sombra e humidade chegando a 90%. O percurso, tal como nos primórdios da maratona, era de 40 quilómetros, com partida e meta no Estádio Olímpico. O percurso era tão duro que comentadores disseram que os percursos em Atenas e Paris eram “avenidas” em comparação com o de St. Louis.
Havia sete colinas, variando de 30 a 100 metros, algumas com longas e brutais subidas. Em muitos lugares, o chão estava rachado e com pedras, e os atletas tiveram constantemente de se esquivar do tráfego, trilhos, os elétricos e pessoas passeando os seus cães. A hidratação, aconteceria apenas em dois lugares, ao 10º e 20º quilómetro.
A restrição da hidratação foi propositada, orquestrada por James Sullivan, o principal organizador dos Jogos e diretor da prova, objetivando minimizar a ingestão de líquidos para testar os limites e efeitos da desidratação propositada. Assim, fora desses postos, só era possível água através dos carros da equipa técnica ou de médicos que seguiam ao lado dos corredores. E esse foi, junto com o calor, o maior problema da prova. Num percurso maioritariamente de terra batida, o arranque dos carros levantava grandes volumes de poeira, que faria mal a todos os corredores, pois ao inalar tanta poeira, desidratavam, ficavam enjoados, ou desmaiavam mesmo.
As primeiras colinas não foram um aparente problema, contudo, a subida da temperatura e a poeira constante, começavam a fazer efeito nos atletas. John Lordon, um dos favoritos, inalou tanta poeira que sofreu um ataque de vómitos e desistiu. Pior aconteceu ao californiano William Garcia, que se tornou quase a primeira vítima fatal de uma maratona olímpica. Foi encontrado desmaiado ao lado da estrada e hospitalizado com uma hemorragia; a poeira cobriu o seu esôfago e rasgou o seu estômago. Se ele tivesse ficado mais uma hora sem socorro, poderia ter sangrado até a morte. Len Tau, um dos participantes sul-africanos, teve um problema a mais: foi perseguido durante mais de uma milha fora do percurso por cães bravos.

Pêssegos e maçãs

Já o cubano Carvajal trotava nos seus pesados sapatos, talvez sendo o melhor preparado fisicamente entre os que continuavam em prova. No entanto, ele parava constantemente para conversar com os espectadores no seu inglês precário. A determinado momento, a fome de dois dias atacou-o fortemente e ele parou um carro; viu que os seus ocupantes estavam a comer pêssegos e pediu um. Apear de lho ter sido negado, ele simplesmente pegou em dois e comeu-os enquanto corria. Não satisfeito, pouco mais à frente, ele parou num pomar e comeu algumas maçãs, mas que estavam podres. Sofrendo de dores no estômago, simplesmente encostou perto de uma árvore, deitou-se e dormiu uma soneca. Sam Mellor, que dividia a liderança, também experimentou cólicas severas. Ele desacelerou para uma caminhada e finalmente parou, desistindo.
A principal confusão da prova começou na altura do km 15, quando Fred Lorz também desistira da prova, severamente desidratado e com muitas cãibras. Sem querer esperar pelo carro da organização, decidiu aproveitar uma boleia de um dos automóveis que o acompanhavam e foi acenando para os espectadores e colegas corredores enquanto passava.
A corrida caiu no colo do inglês Thomas Hicks, que apesar de ser um dos favoritos, não era o mais talentoso. Contudo, todos os grandes nomes já tinham desistido ou estavam milhas atrás dele. Assim, era só manter, mesmo que a todo custo, que ele seria o vencedor. E a sua equipa, composta por dois homens que o acompanharam de carro a partir do km 16, sabiam exatamente o sentido de “a todo custo”, dentro daquilo que eles consideravam como sabedoria fisiológica e nutricional da época.

Veneno e conhaque

A certa altura, Hicks pediu-lhes para tomar uma bebida, mas eles recusaram; em vez disso, deram-lhe uma esponja para molhar a boca com água destilada quente! Perto do km 28, vendo que o inglês já estava no seu limite, os seus assessores deram-lhe uma mistura de 1 mg de sulfato de estricnina e clara de ovo (já que o gosto da estricnina é bastante amargo). Isso nada mais foi que o primeiro registro do uso de drogas nas olimpíadas modernas.
Sulfato de estricnina, o famoso veneno de rato, em pequenas doses, era comumente usado como estimulante, e na época não havia regras sobre substâncias dopantes (algo que só veio a ter certo controle a partir da década de 1960). E como se isso não fosse suficiente, a equipa de Hicks também levava uma garrafa de conhaque francês, mas esperaram um pouco até que pudessem avaliar a condição do corredor.

De boleia para a vitória

Enquanto isso, o carro que levava Fred Lorz de regresso ao Estádio superaqueceu e parou de funcionar. Ainda faltavam cerca de oito quilómetros para a meta e Lorz, que estava recuperado das cãibras, resolveu chegar ao Estádio a correr, depois de uma boa boleia. Um dos assessores de Hicks viu e ordenou-lhe para que ele se retirasse, mas Lorz continuou a correr, até que chegou ao Estádio e resolveu entrar; deu a volta completa na pista e achou que seria engraçado romper a faixa da meta, e fazer os mais de dez mil espectadores que ali estavam entrar em delírio, gritando “Um americano ganhou!”.
Foi ovacionado, e deixou o que ele considerava uma “piada” continuar. Chegou ao ponto da filha do presidente americano Theodore Roosevelt, Alice, entregar o prémio, colocando-lhe uma coroa de flores e a medalha de ouro. Quando as pessoas que tinham visto Lorz entrar no carro, contaram o caso para a Organização, esta imediatamente indagou o impostor, que confirmou toda a história, e sorrindo, afirmou que nunca teve intenção de aceitar a honra: era tudo uma brincadeira.
A revolta do público foi tamanha que se ouviram vaias num volume maior que as palmas dadas anteriormente, e a indignação tomou tal forma que a Amateur Athletic Union proibi-o para sempre de participar em eventos desportivos, pena revista meses depois, sobretudo pela fama de “brincalhão” de Fred Lorz.
Enquanto isso, Hicks estava em pé somente pela força da estricnina no seu sangue, desanimado por ter visto Lorz à sua frente. O seu grande objetivo de vida era vencer uma maratona e, pelo visto, ele não conseguiria de novo. Assim, não havia motivos para continuar o seu calvário. Mas quando os carros vieram dar a notícia da desclassificação de Lorz , Hicks ganhou ânimo e forçou as pernas num trote.
A equipa técnica dera-lhe outra dose de 1 mg de sulfato de estricnina e de claras, desta vez com um pouco de conhaque para aumentar o poder do estimulante. Eles procuraram água quente e atiraram-na sobre o seu corpo e a cabeça. Aparentemente deu certo, porque ele pareceu reviver e apressou o passo para algo ainda assim mais lento do que um trote. Mas logo depois, por causa de todo o estimulante, ele entrou num processo de colapso.
Começou a ter alucinações, acreditando que a linha de chegada ainda estava bem distante. Na última milha, implorou algo para comer e pediu para se deitar, pedidos obviamente negados. Ao invés disso, ele recebeu mais conhaque e engoliu mais clara de ovo, mas sem o sulfato de estricnina dessa vez.

Levado à chegada

 Nesse momento, o percurso possuía duas colinas antes de entrar no Estádio Olímpico. Mais de mil pessoas estavam por ali, incentivando-o a subir, caminhando na subida e deixando o corpo descer automaticamente. Foi o seu esforço final, pois quando chegou ao Estádio, já rastejava. Para ter a certeza da vitória e acabar com o sofrimento do inglês, os dois membros de sua equipa levaram-no sobre a linha, segurando Hicks no ar, e ele foi declarado vencedor, com a marca de 3h28m53s – o tempo de conclusão mais longo da história maratona olímpica.
Para termos uma ideia do seu avanço, o segundo colocado, o francês Arthur Cory chegou seis minutos depois, seguido pelo americano A.L. Newton. O quarto colocado foi o excêntrico cubano Felix Carvajal: a soneca fez –lhe bem e ele chegou com muita boa disposição. Na história não existe o “se”, mas se não fossem as paragens para conversar, os roubos de pêssego e a soneca por conta da maçã podre, talvez a história do carteiro cubano fosse outra.
No final dessa “louca corrida”, apenas 14 corredores concluíram a prova, incluindo os três gregos que não tinham corrido nenhuma maratona e o sul-africano, o que tinha sido perseguido por cães e correu uma milha a mais para fugir deles, e que terminou em nono.
Foram necessários quatro médicos e uma hora para Hicks se sentir bem o suficiente para se levantar. Ele tinha perdido cinco quilos durante a corrida, tamanha era a desidratação, e a sua sorte, segundo os médicos, foi a de não ter tomado outra dose de sulfato de estricnina, que talvez o tivesse conduzido à morte.

Ameaça à maratona

Houve tentativas de protestos sobre as ajudas químicas a Hicks, e até de ajuda ilegal, por ter sido carregado no final (o que nos Jogos Olímpicos de 1908 desclassificaria o campeão), mas James Sullivan, diretor da prova, indeferiu todos. Contudo, a prova foi tão desastrosa que muito se discutiu nos jornais e no Comité Olímpico sobre a permanência da maratona nas próximas edições.
Hicks lá recebeu a coroa e a medalha, mas o que ficou marcado foi uma das únicas declarações lúcidas que conseguiu fazer naquele momento: “Nunca na minha vida, eu vou correr outra prova como esta”. Mas sabemos como é a memória de maratonista: no ano seguinte, já estava enfileirado para correr mais uma edição em Boston, dessa vez vencida pelo perdoado Fred Lorz. Sem piadas, sem trapaça, sem carro, ele era, assim mesmo, capaz de ser um verdadeiro campeão.

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