Se os prémios se aproximam, os patrocínios ainda valorizam mais os homens que as mulheres

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Comemora-se hoje o Dia Internacional da Mulher. No desporto, são ainda muitas as discrepâncias entre os dois sexos. Divulgamos um interessante artigo publicado hoje no Globoesporte.com. Os subtítulos são da nossa autoria.

Serena Williams embolsou 28,9 milhões de dólares em 2016 e foi apontada pela Revista Forbes como a atleta mulher mais bem paga do mundo em todas as modalidades. Em prémios, até ganhou mais do que alguns ícones do masculino, como Roger Federer e Rafael Nadal. Mas nem mesmo o pioneirismo do ténis, que equiparou as cifras pagas a mulheres e homens em todos os Grand Slams em 2007, evitou o que hoje é o maior obstáculo da igualdade de género no meio desportivo: a publicidade. Mesmo nas modalidades em que os bónus pelas conquistas são iguais, os montantes pagos pelos patrocinadores fazem a balança pender muito mais para os homens.

Mais equilíbrio nos Jogos Olímpicos

Os contratos particulares com empresas, representam em muitos casos, a maior fatia dos ganhos dos atletas e formam um campo no qual o Comité Olímpico Internacional (COI) não tem influência direta. O que está ao alcance do COI, sofreu sensível mudança desde o final de 2014, quando a entidade divulgou a promoção da igualdade de género como 11º item da lista de 40 recomendações para repaginar o futuro olímpico, no documento conhecido como Agenda 2020.

A pressão do COI tem feito com que a participação feminina nos Jogos Olímpicos aumente a cada edição. Se os primeiros Jogos da era moderna, nem sequer tiveram presença feminina, em Londres 2012, com a inclusão do boxe feminino, todos os desportos passaram a ser disputados por mulheres – os homens não competem nem na natação sincronizada, nem na ginástica rítmica.

O aumento do número de provas femininas é expressivo. Na Rio 2016, 139 das 306 medalhas em disputa eram para mulheres – fora outras nove mistas. A tendência é que em Tóquio 2020 sejam 318 provas: nove mistas, 159 masculinas e 150 femininas.

Algumas modalidades ainda precisam de confirmar o programa de provas, mas há federações tradicionais já anunciaram as novidades. No remo, em vez de oito provas masculinas e seis femininas, como aconteceu no Rio 2016, serão sete de cada naipe. A canoagem foi pelo mesmo caminho: eram oito provas masculinas e quatro femininas, e agora, são seis para cada sexo.. O judo rduziu a duração dos combates masculinos em  um minuto, igualando o tempo de competição para homens e mulheres. O boxe, por sua vez, propôs a inclusão de duas novas categorias no feminino.

Diferenças nos prémios publicitários

Nada disso, porém, sensibilizou de forma significativa o mercado publicitário. Serena, com 12 patrocinadores, faturou 20 milhões de dólares em contratos no entre Junho de 2015 a Junho de 2016, segundo a Forbes. No mesmo intervalo, Federer é apontado pela publicação como o desportista que mais faturou com patrocínios: US$ 60 milhões de dólares. Djokovic, que fez declarações polémicas sobre a igualdade no pagamento de prémios, ganhou 34 milhões de dólares. Cristiano Ronaldo, o atleta mais bem remunerado do planeta levando em conta os salários, recebeu 32 milhões de dólares com contratos semelhantes. LeBron James, astro do Cleveland Cavaliers na NBA, embolsou 54 milhões de dólares em patrocínios. Na lista dos 25 atletas mais bem pagos do ano, somando-se salários e publicidade, nenhum é mulher.

Maior desequilíbrio nos desportos de massas

Para Antonio Carlos Morim, coordenador de pós-graduação da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), a evolução feminina é enorme, mas três desportos ainda desequilibram o mercado. Além dos já citados futebol e basquetebol, o futebol americano completa a trinca na qual a diferença de valorização contribui para uma discrepância geral.

– A participação feminina está praticamente equiparada no todo, mas o problema é que nos desportes massivos, há um desequilíbrio monumental, e são eles que movem as maiores marcas, os espectadores e a mídia. NFL, NBA e o futebol, estão nas mãos de homens e concentram a maioria dos atletas que as empresas procuram. O diferencial muitas vezes nem é o salário, mas o somatório de direitos de imagem e propaganda. Pode mudar o cenário em todo o resto, em todas as outras modalidades olímpicas, mas se não mudar nesses, a Serena vai continuar ganhando menos do que o Djokovic, e a mulher no geral vai continuar segregada – disse o especialista.

Ainda grandes discripâncias no golfe

Mesmo sendo menor do que no caso dos patrocínios, a distância entre os valores dos prémios ainda existe em algumas modalidades olímpicas. O golfe, que voltou ao programa no Rio, paga às mulheres menos da metade do prémio dos homens (5 a 12 milhões) no US Open, o torneio mais tradicional da modalidade. Outra grande competição, o PGA Championship também tem um abismo: os homens ganham de dólares e as mulheres 3,5 milhões.

Ciclo vicioso com poucas mulheres no comando
Não é só dentro das “quatro linhas” que as mulheres procuram maior reconhecimento. O número de treinadoras no país ainda é bem menor do que o de treinadores. Na história olímpica do Brasil, os destaques são Rosicleia Campos, que comanda o judô feminino nacional há mais de uma década, e Letícia Pessoa, que guiou Adriana Behar/Shelda e Alison/Emanuel em campanhas que culminaram da conquista de três pratas olímpicas no vôlei de praia.

Nos desportes coletivos, por exemplo, apenas uma mulher comanda uma seleção nacional atualmente: Emily Lima, no futebol feminino. No restante, são os homens que dominam os cargos. José Roberto Guimarães, bicampeão olímpico com o voleibol feminino, e Morten Soubak, que levou a equipa de andebol ao inédito título mundial em 2013, foram os que obtiveram resultados mais expressivos num passado recente.

Em cargos de gestão, as mulheres são presença ainda mais rara. A única presidente de Confederação dentre os desportes olímpicos é Luciene Resende, da ginástica (CBG). Para Antonio Carlos Morim, a ausência de mulheres em postos de comando no desporto gera um ciclo vicioso.

– As mulheres precisam estar presentes nos conselhos, nas federações, em todas as esferas de tomada de decisões. No mercado de trabalho como um todo, as mulheres estão ganhando espaço como CEOs, mas ainda é um processo lento. Mas no desporto, é ainda mais. A mulher precisa estar presente em todos os eixos da gestão para que o ciclo se torne virtuoso. Se isso não acontecer, não adianta ter mais participação na prática. A menina vai continuar admirando atletas homens, assistindo mais a jogos masculinos e torcendo pelos clubes do pai.

Para o especialista, o surgimento de ídolos mulheres é fundamental para que as meninas queiram tornar-se atletas e, com um maior número de praticantes, naturalmente haja uma mudança de cenário. No BMX, a Colômbia tem um exemplo de sucesso. Com apenas 25 anos, Mariana Pajón é bicampeã olímpica e batizou uma pista no seu país. O incentivo dado a ela reflete-se em uma geração que admira a modalidade e vê no desporto uma nova perspectiva.

Mulheres, novos astros em Tóquio 2020?

Nas últimas edições olímpicas, Usain Bolt e Michael Phelps dividiram os holofotes como os principais astros do evento. Com a retirada dos dois e o posto vago de destaque para os Jogos de Tóquio,  Globoesporte.com promoveu um inquérito sobre quem brilhará em 2020. Os votos dos internautas, curiosamente, elegeram duas mulheres. A ginasta Simone Biles, que no Rio conquistou quatro ouros e um bronze, foi a mais citada, com mais de 7.200 votos. A seguir, veio a nadadora Katie Ledecky, que faturou quatro ouros e uma prata no Centro Aquático.

Por: Guilherme Costa e Helena Rebello

 

 

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